Ao contrário


No final da década de 1980 eu era um jovem recém-egresso da faculdade tentando ganhar o pão com o suor do meu rosto. No currículo, estágios realizados durante a graduação e experiências fugazes no mercado de trabalho. Fiquei surpreso ao ser escolhido para concorrer no processo seletivo conduzido por um instituto de apoio a indústria do Rio Grande do Sul. Além das entrevistas de praxe, fazia parte do pacote de admissão um curso de formação de trinta dias a ser ministrado em Brasília. 

Nem pestanejei. Assinei o contrato pensando na viagem. Nunca saíra dos pagos, então considerei ser uma formidável oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Sequer supus que esta aventura revelaria uma faceta oculta de minha personalidade, a qual se desenvolveria completamente vários anos depois.

Arrumei as malas e desembarquei lépido e fagueiro na Capital Federal. O contratante providenciara acomodações num hotel próximo a universidade responsável por organizar o curso. Fui alocado numa turma composta por uma centena de candidatos de diversos rincões do País. O bando era heterogêneo ao extremo. Nos distinguia o fato de atuarmos em distintos setores da cadeia produtiva.

As aulas eram puxadas e no encerramento haveria uma prova eliminatória, por isso estudávamos nos horários livres. Na terceira semana participei de uma sessão de revisão de tópicos particularmente complicados. Ao sair meio zonzo da sala abordou-me uma colega simpática, embora um tanto retraída. Costumávamos rever as matérias juntos, tomar café e papear nos intervalos, por isso não estranhei quando me convidou para um passeio. Chamava-se Sônia e era oriunda da região. Ia visitar a família e perguntou se eu gostaria de conhecer sua cidade natal, localizada a uns 60 quilômetros do campus.

Partimos na manhã de sábado, viajando no melhor estilo "cata-corno", ou "pinga-pinga", como se diz no Sul. O ônibus caia aos pedaços. Sacolejou um par de horas, enveredou por uma estrada poeirenta e nos largou numa birosca, a pedido de Sônia.

Estávamos em pleno cerrado goiano. O resto do trajeto foi percorrido a pé, debaixo de Sol forte. Chegamos por volta do meio-dia a um vilarejo tão diminuto que descrevê-lo como pequeno é engrandecer seu tamanho. Resumia-se a uma capela barroca cercada por um muro baixo, uma praça fronteira e o quadrilátero de velhas casas ao derredor. O censo de 2022 registrou cinco mil habitantes, contando-se a área rural.

A companhia era agradável, o local pitoresco e o calor sufocante. Concluído o almoço, saímos a caminhar. Paramos na padaria e compramos refrigerantes. Fazíamos hora esperando a abertura da igreja. No centro da praça havia um coreto bastante judiado pelo tempo. Sentado no topo da escadinha de acesso, um homem descalço, vestindo bata e calças de algodão grosseiro olhava-me intensamente. No cruzar de nossos olhares, tirou o chapéu de palha da cabeça. Com a mão direita traçou uma cruz na testa, outra nos lábios e a última no coração. Se fosse hoje seria diferente. Naquela época eu não diferenciava assombração de vivente.

Saudei o homem com um aceno. Sônia riu e indagou sem tirar o canudinho da boca:

— Tá tudo bem?

— Quem é aquele sujeito?

— Que sujeito?

Ia dizer "aquele ali, no coreto", mas ninguém estava lá ou no entorno. Senti uma inquietação crescente no peito.

— D. Ermínia abriu a sacristia. Vamos?

D. Ermínia, uma senhora na faixa das sessenta primaveras, acumulava os papéis de zeladora, historiadora, guia e guardiã do patrimônio. A igreja era o xodó dela.

Segui Sônia que, por ser nativa, conhecia e era conhecida por todos. Cumprimentei D. Ermínia e perguntei:

— Quando começa a apresentação?

As duas se olharam de um modo esquisito.

— Qual apresentação? — quis saber D. Ermínia.

— Eu vi um rapaz fantasiado de escravo na praça. Parecia ser ator. Não fazem performances pros turistas aqui?

— Faríamos se houvessem turistas — riram divertidas.

Dei o assunto por encerrado e me concentrei na explanação da guia. A propósito, impressionou-me a riqueza dos adornos e o excelente estado de conservação das imagens.

D. Ermínia elucidou particularidades do simbolismo barroco, destacando que o farto emprego de ouro nos ornamentos devia-se a generosas doações feitas por um senhor de engenho no século XVIII, preocupado em garantir um assento na Mesa Celestial, apesar de dissoluto e mesquinho.

Sônia ouvia atenta, parada em cima de uma tampa de madeira marcada com um "X" em baixo relevo. Interrompeu a narração:

— Foi esse que mandou enterrar os cativos na praça?

— Esse mesmo.

D. Ermínia, radiante, aproveitou o mote e revelou um escândalo convertido em lenda.

Se o Prêmio Darwin existisse em 1770 o Comendador Da Silva teria sido o vencedor ao provocar a própria morte de maneira bizarra. Proprietário de muitas posses - herdadas do ramo materno - e poucas luzes - a estultícia viera do pai - resolveu inventariar a Casa de Armas em pessoa, pois desconfiava da honestidade dos agregados. O paiol não tinha janelas. Por estar escuro, acendeu uma vela para enxergar as peças. Ao examinar o conteúdo de uma barrica cheia de pólvora ocorreu o trágico desenlace. Reuniram os restos mortais e os prepararam para serem depositados em um nicho pegado ao altar do único templo disponível num raio de quilômetros. O recinto sagrado, erguido por seus antepassados, era o destino adequado para o repouso de um cavalheiro de sua estirpe e importância.

Acreditava-se que sítios santificados propiciariam benefícios espirituais aos desencarnados, daí a prática de sepultar no interior de igrejas. A soma da limitação física de área sacra construída e a proliferação de interessados nos lotes ofertados resultou no surgimento de espaços exorbitantemente caros. Consequentemente, apenas endinheirados conquistavam este tratamento privilegiado. Aos paroquianos menos abastados restava a inumação no átrio. Obviamente, os desvalidos não tinham onde cair morto. Não raramente seus despojos adubavam pastos ou lavouras.

O Comendador não fora meramente boçal. Fora violento e cruel, principalmente com subalternos. Durante sua existência, amealhou inimizades e rancores a granel. Ególatra contumaz, deixou jurado e testamentado, para infortúnio dos trabalhadores do engenho, o desejo de continuar sendo servido por escravizados após seu passamento.

Antes de revelar o macabro desfecho deste desejo, D. Ermínia questionou se conhecíamos o costume de velar e inumar o falecido com os pés apontando para a saída.

Por não conhecermos, explicou:

—  Serve para facilitar a partida da alma para o pós-vida. É uma forma profilática de exorcismo. 

A partir daqui o relato adquiriu um aspecto sombrio. 

No badalar do toque de finados, conclamando a freguesia para a missa de encomendação do Comendador, Bento, zeloso feitor, e seus jagunços enterravam na praça fronteiriça à igreja os cadáveres de doze cativos degolados ao longo da madrugada. Jeito estúpido e escabroso de atender a derradeira ordem do patrão.

Incapaz de enfrentar os desafetos presentes na despedida, o corpo do Comendador não recebeu as reverentes demonstrações de pesar esperadas. Ao contrário. Foi alvo de discretas manifestações de júbilo, irreverentes chacotas, impropérios e ofensas de variados calibres. Inclusive o vigário, com as burras abarrotadas pelo pagamento auferido, tinha lá suas pendências com o defunto e a decisão de matar e encovar uma dúzia de inocentes ao redor da igreja não ajudara a melhorar sua fama. Talvez por isso ninguém se opôs a inobservância do preceito. Desceram-no ao túmulo com os pés voltados para o altar. Por conseguinte, enquanto o vilarejo dorme, o apalermado fantasma ergue-se envolto em sua mortalha e caminha na direção errada. Dá de cara com o sacrário e retorna ao ponto inicial, permanecendo preso a esse ciclo há duzentos e tantos anos. Não só ele.

Amaldiçoados pela bazófia do Comendador, os antigos serviçais só descansarão se forem dispensados da servidão. Anseiam pela alforria penando ao relento. Toda noite seus espectros bradam no alpendre, golpeando portas eternamente trancadas, pois neste triste período de nossa história escravos não eram bem-vindos à Casa de Deus. Invocam o espírito do patrão para direcioná-lo no rumo certo e livrá-los daquela provação. Inutilmente. O Comendador ouve somente a própria voz.

O martelar estridente do sino convocando os fiéis para a celebração da tarde me distraiu. Um coroinha apressado descerrou as portas. No portão do átrio, vi um grupo de pretos vestidos no feitio do anterior. Aliás, ele se posicionara um passo adiante, ajoelhado com o chapéu na mão. Foi impressão ou ele sinalizava me chamando?

Sônia e D. Ermínia trocavam palpites a respeito de um bafafá ocorrido na Capital. Juntei-me a elas e agradeci o guiamento. Ao sairmos atravessamos o agrupamento prostrado com as cabeças descobertas. As duas passaram sem prestar a mínima atenção. O líder estendeu-me a mão áspera, calejada, em gesto de súplica. Carrego comigo até hoje a sensação de desamparo colhida no seu olhar. Arrastado por Sônia, passei direto.

Hospedara-me na casa dela, um sobrado adjacente a um dos cantos do quadrilátero. Após o jantar, saboreei um cafezinho proseando com o pai da moça na varanda. Ele entrou para assistir o telejornal e eu decidi esticar as pernas na praça deserta. Ou quase.

Instintivamente evitava me aproximar do coreto. Perambulava por uma alameda fracamente iluminada. Parei sob a luminária de um poste solitário, admirando a pasmaceira do povoado. Nisso fui saudado por uma voz soturna:

— B'as noite meu sinhô.

O tal moço de olhos suplicantes adentrou o círculo demarcado pela luz. A despeito do susto, respondi no mesmo tom:

— Boa noite. Aproveitando a fresca?

— Vosmecê não reconhece eu não?

— Não meu amigo. Quem és tu?

— Sô um dos doze, uai. Os tar que o Comendadô reservô pra levá com ele.

Um arrepio congelante percorreu-me a espinha. Iniciou na lombar e culminou eriçando os cabelos da nuca. Ele devia ser doido - toda cidadezinha tem um -, um gozador caçoando o forasteiro. Ou pior. Podia estar falando a verdade.

Das profundezas escuras foram brotando, um a um, onze parceiros do interlocutor. Doze no total. Todos descalços, chapéu de palha na mão, vestindo batas e calças de algodão grosseiro. Ao vê-los de perto comecei a perceber certos pormenores. As roupas estavam sujas de terra e em cada pescoço sobressaía um talho medonho.

Não sei explicar como ou por quê. Simplesmente o pavor transformou-se em desvelo àquelas almas penitentes. Sim, eram almas e eu via isso claramente. Calei e escutei suas queixas. Compreendi suas dores e entendi caber a mim aliviá-las.

Olhei para a casa de Sônia. Reconheci sua silhueta recortada contra a luz da sala. Ela observava de longe.

O vulto escuro da igreja subitamente alumiou-se de dentro para fora. Janelas e frestas filtravam uma suave luminosidade azulada, anunciando que o Comendador iria tentar novamente.

Tomei o rumo da sacristia. A porta estava trancada. Felizmente a fechadura centenária cedeu fácil ao encontro do meu ombro. Dirigi-me à nave central, a tempo de ver a tampa marcada com um "X" ser aberta e aflorar um baixote barrigudo, enrolado num lençol encardido. Da Silva ia dar o primeiro passo.

— Comendador! — gritei. — Não é por aí...

Ignorou-me ostensivamente e fez menção de prosseguir. Parei a sua frente, bloqueando a passagem. Retribui com firmeza seu olhar furibundo.

Alguém sussurrou no meu ouvido:

— É inútil confrontá-lo. Adule-o. Soberba e gula são fraquezas a serem exploradas.

Engraçado que na hora pareceu natural receber conselhos vindos sabe-se lá de onde. O sobrenatural impunha-se vertiginosamente, tornando trivial a nova ocorrência. Posteriormente, conclui que em momento algum estivera sozinho ou desamparado. Uma força amiga estava e continua a estar ao meu lado. 

Inegavelmente foi um sábio conselho. Mudei de tática. Modulei a fala, assumi uma postura servil e blefei descaradamente:

— Alvíssaras digníssimo Comendador. Trago-lhe importante mensagem de Dom Apporelly, Barão de Itararé.

O pateta empertigou-se, tocado pela curiosidade.

— Deveras? Desembuche!

— O Barão solicita a Vossa Excelência brindar-nos com vossa presença no rega-bofe em homenagem ao Embaixador do Reino da Trapizonga. Serão servidas iguarias ímpares, regadas a vinho do Porto e cachaça brasileira.

Dava pena ver a expressão esfaimada do gajo.

— E de sobremesa Pastéis de Santa Clara e Toucinhos do Céu.

— Valei-me Santo Acúrsio! Morro de ansiedade por degustar tais manjares.

— Se deres a honra de acompanhar-me, ei de conduzi-lo ao palácio no qual lhe aguardam o Barão e demais convivas.

— Não te faças de rogado, oh palerma. Encabeça fila e conduz-me.

Incorporado no personagem, fiz um rapapé e marchei garbosamente em direção ao fundo da nave. Destranquei e abri as portas. Lá fora, divididos em duas colunas, ladeando o carreiro, reencontrei meus fantasmagóricos amigos. Agora eu os assombrava, levando a cabo a missão a mim confiada. Uma transfiguração maravilhosa ocorreu. Os andrajos viraram capulanas coloridas, os chapéus barretes. As faces antes tensas entoaram alegres canções incompreensíveis. Riam, cantavam e marcavam o ritmo com as mãos. Dei o lado e deixei passar Da Silva e seu nariz empinado. Este, indignado com o comportamento altivo dos libertos, vociferava:

— Caterva de mequetrefes. Na volta hão de cantar no compasso da chibata. Vou quebrar-lhes a empáfia e os queixos. Bento, recolha essa escória à senzala...

Seguiu esbravejando até ser tragado pela escuridão.

Levantei os braços e exclamei eufórico:

— Acabou!

Observei pela primeira vez um fenômeno que se tornaria corriqueiro no futuro. As aparições sumiram uma a uma. Restou o do coreto, visivelmente emocionado. Evanesceu lentamente sem proferir palavra. Não precisava. Sua aura emanava gratidão.

No domingo o povoado acordou alvoroçado. A notícia do arrombamento do santuário correu feito rastilho de pólvora. Numa das versões os vândalos buscavam ossos humanos para praticar rituais satânicos. A campa revirada era testemunha.

Alheia aos comentários populares, D. Hermínia corria atarantada, fazendo o levantamento das relíquias para verificar se os ladrões haviam roubado algo de valor. Exausta, chegou a conclusão de que nada faltava. Sônia acudiu com chá de camomila. Acalmou-a e convenceu-a a nem chamar a polícia:

— Carece não. Tá tudo aí. Só vai criar confusão.

Voltei ao alojamento ao anoitecer. Sônia jamais falou a respeito dos acontecimentos da noite de sábado. Hoje tenho convicção de que ela sabia da maldição e seu convite foi um sutil apelo por ajuda.







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