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Cuidado com o cachorro

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Era dezembro. O verão aqui no Rio de Janeiro costuma ser quente, mas naquele ano o calor estava literalmente insuportável. A história que vou contar começou no primeiro domingo do Advento. Eu deixara o conforto do ar condicionado para ir à padaria da esquina comprar sorvete. Ao passar pelo muro de uma casa abandonada, notei o portão aberto e parei para dar uma espiada. Era uma antiga e maltratada residência. A despeito das marcas deixadas pelo tempo, guardava muito do esplendor original. Sem dúvida uma sobrevivente do período áureo da Tijuca, quando o bairro era povoado em sua maioria por veranistas que buscavam o clima ameno da região. Não ousei entrar, mas divisava o jardim convertido em mato alto, muito lixo espalhado e um cachorro vira-latas caramelo sentado em frente a escada que leva ao alpendre. A cena em si não diferia do esperado, entretanto a postura do animal chamou-me a atenção. Imóvel, fitava o vazio a sua frente, indiferente a tudo. Arfava com meio palmo de língua de fora...

Lenda urbana

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Por mais adulta e independente que seja uma pessoa, a perda de um dos genitores sempre deixa um gosto amargo de orfandade. Quando meu pai morreu eu estava longe e, a princípio, aceitei a notícia com serenidade. Senti a exata noção da perda apenas ao receber pelo correio diversos pertences pessoais do velho enviados por minha irmã, os quais lhe pareceu que seriam de meu interesse. Aberta a caixa, revelou-se uma coleção de coisas que só se encontram no Rio Grande do Sul, meu torrão natal: boina campeira, guaiaca, bombacha, faca de churrasco e um sortimento de tralhas diversas. Pedaços de lembranças que guardo até hoje. Ela aproveitou a ocasião para remeter também itens que eu havia deixado ao me mudar para o Rio de Janeiro e que agora só ocupavam espaço no apartamento de nossa mãe. Os cacarecos eram de outra espécie, adequados a uma infância bem vivida naqueles idos tempos de brincadeiras analógicas: time de botão, chimpa para o jogo de tampinhas, álbum de história natural, figurinhas de...

Contando ninguém acredita

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Nunca é fácil lidar com a perda de um ente querido e cada pessoa tem sua forma particular de expressar os sentimentos nesse momento singular, em que a existência se depara com a finitude. Que dizer de uma mãe que perde um filho? Ou de uma viúva que precisa lidar com a herança deixada pelo marido? E o que fazer quando somos instados a estar presentes pelo dever da solidariedade? Essa coletânea traz três contos que abordam temas delicados, mas não por isso menos importantes, com leveza e bom humor. São estórias baseadas em fatos reais, por mais incrível que pareça. Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha Transmitindo em todas as frequências Numa pequena cidade da Região Sul do País viviam Seu Hélio e Dona Maria. Eram pessoas simples, batalhadoras, que trabalhavam muito para sustentar cinco filhos com dignidade. Dentro do possível, levavam um vida tranquila, quando, inesperadamente, a cegonha avisou que viria visitá-los novamente. Levaram um tremendo susto! Estavam já com certa idade e não ...

Sépia

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Era inverno e o dia estava lindo, com um céu azul para brigadeiro algum botar defeito. Para Vicente, que acompanhava o sepultamento de Jacinto, um amigo vitimado por um acidente, isso não estava certo. Em sua mente enterros deveriam, obrigatoriamente, ocorrer em dias nublados, de preferência com uma chuva fina a encharcar os casacos dos homens e os chapéus das mulheres. Mas enfim, fazer o quê se o tempo não queria colaborar. A cerimônia já havia terminado e algumas pessoas permaneciam conversando entre si, lamentando a perda tão precoce daquele jovem promissor. Vicente estava chateado, é claro, mas suportara bem o golpe da fatalidade. Regulava em idade com o falecido, do qual era próximo e de quem sentia muita falta. Sorriu de lado ao recordar algumas passagens impublicáveis, todas elas envolvendo rabos de saia, que vivera com o amigo. Enquanto tirava um cisco do olho reparou em algo que chamou sua atenção. Uma lápide de granito bastante antiga, na qual se destacava a fotografia de uma...

Post Mortem

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Talvez as gerações mais novas não saibam - ou apenas achem estranho, mas houve um tempo em que as pessoas não tinham celular. Jogos como damas e xadrez tinham que ser jogados em tabuleiros e as peças movidas pelos jogadores. Já paciência e "freecell" necessitavam de baralhos e uma mesa. Era tudo analógico. Como também não havia aplicativos de mensagens, era costume as pessoas falarem entre si por telefone fixo. Daí a importância de ter, e manter sempre atualizado, um caderninho - também conhecido como agenda - com o nome e o número de seus contatos mais importantes.  Por tudo isso era normal, naquela época, que as alunas de um tradicional colégio feminino do Rio de Janeiro se reunissem durante o recreio para conversar e comparar seus cadernos com os das amigas. Quanto maior o número de registros, mais popular era a dona do mesmo. Andréia e Fabíola não fugiam a esse padrão. Amigas de longa data, zanzavam pela escola fazendo o maior sucesso e causando, obviamente, sentimentos d...

Quem casa quer casa

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Na derradeira noite de 1959 Aristides anunciava ao mundo seu propósito de ano novo ao pedir Ritinha em casamento. Estavam noivos há alguns anos e já circulavam boatos que ele estava apenas enrolando a moça. Não era esse o caso, pois o moço era distinto e suas intenções sinceras. Tanto é verdade que durante o ano traçara mil planos, guardara cada centavo, só para ver nos olhos de sua futura esposa a surpresa quando tornasse público seu desejo - talvez não para todo o mundo, mas para ela, seus pais e os seus irmãos, que riam a socapa do papel a que se prestara o pobre Aristides. Na emoção do momento misturava juras de amor com frases extraídas dos jornais da época. Que o País vivia um surto de crescimento como nunca havia se visto e, enfatizava ele, era esse o momento ideal para dar início a uma família e ajudar a criar uma grande Nação.  Emocionada e um pouco confusa, Ritinha aceitou o pedido de casamento, apesar de mal formulado - na opinião da seleta plateia. Mas impôs uma condi...