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Benício e o falso medium

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Lembram do Benício, o ancestral maragato notabilizado pela perícia ao aplicar a Gravata Colorada nos legalistas? Pois bem, reencontrei-o. Ou melhor, ele voltou a me procurar durante uma viagem a Porto Alegre. Surgiu pilchado, lenço vermelho no pescoço, tirador de couro sobre o chiripá surrado, garruchas e adaga atravessadas na guaiaca. Continua o mesmo fanfarrão debochado de sempre. Eu voltara à cidade para cuidar do inventário de meu recém finado pai e ele sequer aparentou demonstrar interesse ou solidariedade. Foi logo pedindo favores. Dessa vez para um conhecido tão morto quanto ele. — Estás terceirizando minhas habilidades? - Indaguei magoado pela indiferença, ofendido pelo oportunismo. Respondeu com a cara lavada de costume: — Mas bah! Deixa de melindres! Comentei a respeito dos teus dons e ele pediu que intercedesse. Não me faça desfeita perante um colega! Indignava-me a desfaçatez do antepassado. Em contrapartida, alg...

Chorosa : encontro de almas

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Continuação do conto Chorosa : um apelo à eternidade  ( clique aqui  para ler). Tendo formulado a hipótese da separação de mãe e filha durante a exumação da primeira, precisávamos localizar elementos que confirmassem - ou refutassem - essa premissa. Recriar a cronologia dos fatos a partir de 1839 mostrou-se excessivamente difícil. Por essa razão resolvemos tomar um caminho mais fácil, partindo do lugar no qual D. Quitéria se encontrava no momento. A parte inicial do trabalho coube à Daguerra que levantou, junto à administração do cemitério, a quem pertencia o ossuário. Descobriu ser a proprietária uma figura proeminente, membro de família tradicional, admirada no meio empresarial carioca por seus variados empreendimentos e considerável fortuna. Telefonei para marcar uma entrevista e fui atendido pela secretária que, friamente, deu a entender que sua patroa não tinha tempo a perder com bobagens. Enquanto matutava formas alternativas de contornar...

Chorosa : um apelo à eternidade

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Daguerra é um homem de paz. Recebeu esse nome insólito por obra do escrivão quase surdo e de má vontade que atendeu seu pai na hora de fazer o registro. Ao perguntar como se chamaria o rebento a resposta foi: — Daguerre. Resmungando, registrou o que entendeu, ou seja, Daguerra. Teimoso, recusou-se a rasurar o assentamento, apesar das insistentes bravatas proferidas pelo velho Antônio, fotógrafo das antigas, que viu falhar seu desejo de homenagear o inventor da fotografia no nascimento de seu primogênito. Tive o prazer de conhecê-lo logo após desembarcar de mala e cuia no Rio. Como não conhecia a cidade, pareceu-me boa a ideia de participar de passeios turísticos a pé orientados por guias especializados na história da região. Uma maneira divertida de aprender e fazer amigos como Daguerra, sócio da pequena agência que organizava esse tipo de roteiro. Mantínhamos esporádicos contatos, mesmo tendo eu deixado de participar das atividades. Passados dois...

Cuidado com o cachorro

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Era dezembro. O verão aqui no Rio de Janeiro costuma ser quente, mas naquele ano o calor estava literalmente insuportável. A história que vou contar começou no primeiro domingo do Advento. Eu deixara o conforto do ar condicionado para ir à padaria da esquina comprar sorvete. Ao passar pelo muro de uma casa abandonada, notei o portão aberto e parei para dar uma espiada. Era uma antiga e maltratada residência. A despeito das marcas deixadas pelo tempo, guardava muito do esplendor original. Sem dúvida uma sobrevivente do período áureo da Tijuca, quando o bairro era povoado em sua maioria por veranistas que buscavam o clima ameno da região. Não ousei entrar, mas divisava o jardim convertido em mato alto, muito lixo espalhado e um cachorro vira-latas caramelo sentado em frente a escada que leva ao alpendre. A cena em si não diferia do esperado, entretanto a postura do animal chamou-me a atenção. Imóvel, fitava o vazio a sua frente, indiferente a tudo. Arfava com meio palmo de língua de fora...

Uma vida passando a limpo

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Era sexta-feira, final de outono. Estava tranquilo na minha poltrona, curtindo as luzes da tarde que se infiltravam entre as persianas da janela quando o telefone tocou. A semana fora relativamente calma e já não esperava ser solicitado aquela hora. Meus clientes preferem ligar de manhã cedo ou no início da noite, horários em que acordam dos pesadelos ou se preparam para enfrentá-los. Seja como for, o toque insistente do celular quebrou a modorra e trouxe-me de volta à realidade. A julgar pela agitação da pessoa do outro lado da linha, o assunto era de natureza singular. Um mistério que precisava ser desvendado antes que o levasse a loucura. Pedi que se acalmasse e fornecesse detalhes. Pelo que entendi era outro caso de manifestação sobrenatural, gerando desconforto no mundo dos vivos. O detalhe é que eu moro no Rio de Janeiro e o solicitante numa cidadezinha em Minas Gerais. Apesar disso, insistia para que eu o atendesse imediatamente. Como se tratava de uma viagem de seis horas - não...

Espírito de Natal

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Se não me falha a memória, faz uns quatro anos que passamos o último Natal sem incidentes. O fenômeno teve início em 2018, creio que na segunda semana de dezembro. A partir daí passou a acontecer sempre na mesma época. Começou fraco, na hora eu não reparei, ou não quis acreditar que fosse real, o que é o mais provável. Estava sentado na poltrona da sala, bebericando cerveja enquanto respondia mensagens no celular. Uma sensação desagradável tomou conta do meu peito. Sem razão aparente, olhei para a janela. Era noite, quase não se via o lado de fora. Por um instante vi o brilho fugaz de dois luzeiros. Julguei ser um gato e voltei a zapear o aparelho. Fiquei cismado com a distância entre os pontos luminosos. Lembro de pensar que devia ser um bicho enorme e que não haviam gatos daquele tamanho na vizinhança. Não era um animal, hoje sei disso. Demorou para que eu aceitasse essa simples verdade. No ano seguinte aconteceu de novo. Vi claramente um par de olhos que me vigiava da rua. Dessa vez...