Marco


Os últimos meses não foram fáceis. Precisei enfrentar um incidente tenebroso, com desdobramentos terríveis, entremeado de crueldade e ultraje à inocência; envolto por um véu de falsidade capaz de ocultar a verdade debaixo do meu nariz.

A saga começou prosaicamente: averiguar um evento bizarro na filial de uma franquia de atacados. A qualquer hora do dia ou da noite ecoava um grito aflito e repentino. Naturalmente inferiram ser troça de gaiatos, mas como explicar as ocorrências após o expediente, com o prédio trancado e vigiado? Instalaram câmeras de vigilância, dobraram o número de guardas, fizeram varreduras procurando aparatos eletrônicos e o mistério persistia. Principiara esporadicamente e assim se mantivera ao longo dos anos. Recentemente a frequência intensificara-se, ocorrendo várias vezes no mesmo turno. Tardaram a compreender o que dizia a voz. Parecia um nome. De tanto repetir, chegaram a um consenso. A voz clamava por "Marcos".

Quem seria Marcos? Convocaram os "Marcos" da empresa e os investigaram. Sem sucesso. O desconforto gerado pelo fenômeno incomodava empregados e fregueses, prejudicando o faturamento. A fama de "loja assombrada" aumentou exponencialmente as demissões e a debandada da clientela para a concorrência.

Inteirei-me dos episódios misteriosos nessa fase. O Gerente-geral acompanhava meus perfis nas redes sociais e me chamou porque acreditava lidar com uma anomalia conectada ao sobrenatural. O fez a revelia da alta administração, temendo represálias. Por ser uma iniciativa particular, garanti discrição absoluta. Iniciei a empreitada disfarçado de cliente.

Sondava as instalações perambulando entre prateleiras e parei para admirar um conjunto de panelas inox. A invocação retumbou nitidamente. Vinha do setor vizinho. O olhar atônito dos presentes deixou claro que podiam ouvi-lo. Aguardei a próxima manifestação. Dessa vez o som veio de um canto distante, certificando tratar-se de uma entidade itinerante. Sim, eu pressentira vibrações típicas emanadas por entidades. Vasta experiência com o transcendente asseguravam o acerto da suposição. Havia um mezanino com uma cafeteria, um balcão com vista panorâmica. Tratei de subir e posicionei-me numa mesa colada ao parapeito. Restando meia xícara, a vi transitando silenciosamente, atravessando a gôndola de cereais. O espectro feminino aparentava ser jovem, em torno de trinta primaveras. A julgar pelas vestes, abandonara o plano físico na década de 1970: calça boca de sino, blusa florida, sandálias com salto plataforma. Cabelo Chanel, preso por um lenço. Estacou em pleno corredor, postou as mãos em concha sobre os lábios e berrou:

— Marcos! Marcos! Marcos!

Terminei o café e fui ter com ela na vitrine de importados. Ignorou-me. Explorava atenta cada centímetro quadrado. Obviamente buscava algo. Ou alguém.

Preparou-se para emitir o apelo. Interrompi-a a tempo:

— Marcos não está aqui.

Colocou as mãos nos quadris e desdenhou, fazendo cara de "e eu com isso?". Talvez não entendera. Reforcei o recado:

— Marcos. Não procuras por ele?

— Não. Procuro o André.

A resposta me desnorteou. Também intrigou-me a desenvoltura demonstrada ao falar. Geralmente espíritos perturbados reagem agressivamente a interferência. Entretanto, toda regra tem exceção.

Chamei Edgar, o Gerente, pelo rádio comunicador previamente fornecido. Relatei a existência de uma aparição fantasmagórica no recinto e solicitei aguardar o encerramento do horário de atendimento ao público por questão de segurança. O risco de uma explosão emocional existia e, além disso, prefiro que não me vejam "falando sozinho".

Esperei as luzes se apagarem. Munido de uma lanterna procurei o vigia noturno. Edgar o prevenira de minhas atividades pouco ortodoxas. Ficou visivelmente animado por compartilhar o terror da jornada solitária com um parceiro. Persegui as vocalizações com ele fechando a retaguarda, mantendo rigorosos quatro passos de distância.

Alcancei-a na seção de cama, mesa e banho. Acariciava gatinhos de uma toalha infantil pendurada num expositor.

— Olá de novo — disse com pretensa familiaridade.

— Já nos falamos hoje — respondeu o vigia, pensando que aludia a ele.

Da sua perspectiva estávamos a sós. Eu conseguia vê-la e ouvi-la graças aos dotes paranormais. Para a imensa maioria das pessoas ela passava desapercebida. Sinalizei pedindo silêncio.

— Oi. Você viu o Andrezinho?

— Como ele se parece?

— Desse tamanho — indicou com a mão —, cabelinho cacheado, olhos castanhos. Tá vestindo uma camiseta azul com o Capitão Caverna no peito.

— Infelizmente não o vi.

— Marcos! Marcos! Marcos!

Isso o vigia escutou. Tampou os ouvidos e saiu correndo.

— Se ele chama André, por que gritas "Marcos"?

Ela sorriu. Era bonita como seu sorriso. Pena estar morta.

— Não é "Marcos". É "Marco", de Marco Polo.

A explicação não fazia sentido. Prosseguiu:

— É um trato de mãe e filho. Ao perdê-lo de vista falo "Marco" e ele responde "Polo" pra poder localizá-lo.

Engoli em seco. Ela o procurava porque alimentava a ilusão de recuperar o rebento perdido. Se ele tivesse feito a passagem, teríamos um distúrbio monumental. A revelação de sua morte poderia desencadear reações violentas e imprevisíveis.

Cansada de dar trela a um desconhecido e ávida por retomar a peregrinação, a moça sumiu. Reapareceu na padaria. Logrei alcançá-la um par de vezes. Continuei sendo ignorado.

Pedi ao vigia que liberasse a saída e dirigi-me ao estacionamento. Meu carro era o único parado no enorme pátio, mergulhado na luz baça e amarelada emitida por refletores instalados em postes esparsos. Hesitei por instantes. O vigia, debochado, prometeu cuidar de mim até que entrasse no veículo. Perguntou baixinho:

— Medo de fantasma?

— Tenho medo é dos vivos!

No meio do caminho avistei, imersa na penumbra, uma diminuta silhueta encostada ao para-choque traseiro.

— Será possível? — pensei esperançoso. Se fosse André, teria batido o recorde de descoberta de paradeiros.

Era uma menina. Aproximei-me cautelosamente, não queria espantá-la. Olhos arregalados, pezinhos nervosos, dedinho na boca. Balbuciou:

— O senhor viu a mamãe?

— Que fazes aqui fora sozinha, meu anjo?

Ela apoiou as mãos gorduchas nos joelhos e riu uma risada gostosa.

— Eu não sou anjo. Sou a Laurinha!

Laurinha era um amor de fantasma. Pela feição regulava em idade com André ao desencarnar. Devia ser coincidência. Uma sensação incômoda na garganta rejeitava essa hipótese peremptoriamente.

Agachei para ficar na altura dela.

— Como chegaste aqui?

Pôs os braços para trás e bamboleou, sacudindo o vestido.

— Onde tu mora?

As marcas de desgaste do pneu eram irresistíveis. Levantou a mãozinha, mostrando o mindinho. Chorosa, suplicou:

 — Tá dodói. Dá bejo.

Horrorizado, constatei a falta da ponta do dedo, esmagado violentamente. Lasquei um beijo estralado e posei de preocupado:

— E esse dodói, como aconteceu?

Subitamente a carinha angelical tornou-se uma careta medonha. Um uivo pavoroso emergiu da criaturinha. Manchas roxas afloraram, cobrindo o palhacinho bordado no bolso frontal. Evanesceu. Espiei discretamente a entrada de serviço. O vigia aguardava impávido. Aparentemente não vira ou escutara nada de anormal. Sentei ao volante perguntando aos meus botões a razão da seletividade aleatória. O rogo da mãe clamando pelo filho soava aos quatro ventos. O lamento da inocente era omitido, bem como seu destino trágico. Segui direto para casa. Não preguei o olho. A imagem da dor infligida àquela criança evocava sonhos macabros. Que classe de besta-fera faria isso a um bebê?

Acordei exausto. Tomei o desjejum assistindo frivolidades na TV. A lembrança dos pesadelos deixara impressões profundas. Precisava desviar o foco para desanuviar a mente.

Lavada a louça, taça fumegante na escrivaninha, liguei o laptop e encetei as pesquisas de praxe. Garimpava referências que ajudassem a identificar a mulher e/ou a garotinha. Desisti perto do meio-dia. As informações de que dispunha eram insuficientes para refinar os resultados. Varado de fome, adentrei o boteco da esquina ruminando os parcos dados disponíveis. Almocei a la minuta e optei por tentar uma abordagem indireta.

Retomei o batente traçando a linha de tempo do denominador comum às duas aparições: o terreno do atacado. Em 1971 a área pertencia a um agricultor dedicado ao cultivo de hortaliças, criação de galinhas, essas coisas. O crescimento urbano cercara a chácara e ele a vendeu por um bom preço. Galinheiros e plantações deram lugar a um famoso hipermercado. Na virada do século venderam o prédio e o transformaram em depósito. Retornou à função original ao ser adquirido pela franquia atual. Não localizei indícios referentes à garotinha, em compensação descobri que em 1973, na semana da inauguração, noticiaram um desaparecimento. O acontecimento chocou a sociedade da época. Os jornais estamparam manchetes sensacionalistas durante meses. Por fim encerraram as diligências sem solucionar o caso e o assunto morreu. O nome do desaparecido acendeu um alerta: André.

Essa evidência destravou uma promissora vertente investigativa. Lendo as reportagens apurei que a mãe do André chamava-se Lídia. Inúmeras fotos dela em progressivos estágios de desespero confirmaram isso. Satisfeito, desliguei o computador e peguei um cinema para arejar a cachola. Um problema a menos. Agora faltava identificar a menina. Deixei para o dia seguinte.

Encontrei Lídia vagando na divisão de componentes automotivos, recitando seu bordão irritante. Puxei conversa:

— Oi, Lídia. Prazer revê-la.

A temperatura caiu a ponto de provocar calafrios. Saber seu nome não a exasperou. Deu-me as costas e entregou-se ao ritual costumeiro. A frieza da recepção me desanimou, confesso. Pretendia obter detalhes esclarecedores e com isso desencavar pistas que levassem à elucidação do imbróglio. A obsessão por Lídia impediu-me de enxergar a alternativa óbvia.

Despedi-me de Edgar e segui para o estacionamento. O Sol se punha, tingindo a paisagem com tons dourados. Distraído pelo espetáculo, destranquei o carro. Um alarido brotou do vazio:

— O tio chegou!

Laurinha voltara. Trouxera três amiguinhos com ela. Todos da mesma faixa etária.

Mandei a opinião de terceiros às favas e acomodei-me no asfalto para melhor atendê-los. Os rostinhos expressavam ansiedade, confusão e tristeza. Não podia enjeitá-los.

Escutava relatos desconexos, entrecortados por interjeições e gritinhos, observando os interlocutores individualmente. Pelos trajes deduzi pertencerem a distintos períodos, indo da década de 1970 aos anos 2000. Embora contassem histórias parecidas, divergiam num quesito essencial. Segundo eles, foram abduzidos apartados de seus pais ou responsáveis. Um garotinho sardento contou estar brincando de esconde-esconde com a babá. A menorzinha mencionou ter sido agarrada ao catar uma bola que rolara entre arbustos. A divergência residia na descrição do sequestrador. Os antigos descreviam um homem mau barrigudo e careca. Os contemporâneos um cabeludo com bigode.

O avanço da escuridão pareceu inquietá-los. Abraçaram-se e evaporaram. Finalizava anotações quando fui interpelado por alguém atrás de mim:

— Tudo bem com o senhor? — Era o vigia noturno, aquele da primeira visita. — Te vi sentado no chão e fiquei curioso.

— Pois é — ri constrangido — tive uma premonição e resolvi registrar para não esquecer.

Ele me ajudou a levantar. Espanei a poeira das calças, entrei no carro e rodei a esmo. Tinha fatos concretos para digerir enquanto dirigia.

Dados estatísticos da Secretaria de Segurança Pública ratificaram minhas suspeitas. Houvera um significativo incremento de rapto de menores de cinco anos nas imediações do atacado a partir de 1973. André, Laurinha e os demais integravam um grupo etário claramente definido. Havia outros como eles. Muitos outros. Alguns recentes. Urgia descobrir os culpados por essa barbaridade e a lógica elementar recomendava interrogar as testemunhas oculares. Ao entardecer voltei ao estacionamento.

Quase imediatamente Laurinha e seu séquito rodearam o veículo algariados, felizes por falarem com o "tio" que os via e compreendia. Passei um cortado para acalmá-los:

— Vaca amarela ...

A brincadeira surtiu efeito. Sossegaram o suficiente para que pudesse entabular um diálogo produtivo. Perguntei onde se escondia o restante das crianças. Responderam com um sorrisão. Ninguém queria comer o conteúdo da panela da Vaca Amarela. O tiro saira pela culatra.

— Mostra com o dedinho então.

Travessa, Laurinha tartamudeou, divertindo-se com o suspense. Finalmente todos apontaram numa única direção: os fundos do estabelecimento. Rumei para lá, achando que me acompanhariam. No entanto a patotinha preferiu sumir sem avisar. O vigia noturno recém chegara e postara-se ao lado da entrada de serviço. Ao avistar-me, cumprimentou e abriu a porta. Acenei e avisei:

— Preciso checar uma dica.

Permaneceu na soleira. Adivinhou minhas intenções e alertou:

— Presta atenção. Lá é perigoso. Tá cheio de entulho.

Cheguei a uma zona de despejo. Divisei as ruínas de uma casinhola. Espalhados pelo entorno, montes de materiais diversos: postes de metal, tijolos, caibros, rejeitos de toda espécie, cobertos por mato. Aproveitei os derradeiros resquícios da tarde e cruzei o terreiro. Parei na borda delimitada pelo capim alto. Parei ali por um motivo. Sentado em uma pilha de pedras, um menininho de cabelo cacheado, vestindo uma camiseta esfarrapada, estampada com vestígios do Capitão Caverna, me olhava desconfiado. A pele repleta de hematomas. Conferi as mãos para verificar o estado dos dedos. Estavam intactos.

— Oi, André — arrisquei.

Retesou-se. Estremeceu. A surpresa comprovou ser ele o filho de Lídia. Modulei a respiração, baixei o tom e falei o mais docemente permitido pela euforia:

— Tua mamãe tá te esperando. Vamos lá ver ela?  — Estendi a mão, convidando-o a um passeio. Tencionava levá-lo ao interior da loja e promover o reencontro.

Balançou a cabeça negativamente e cruzou os braços sobre o peito. De repente a expressão amuada converteu-se na careta exibida por Laurinha dois dias atrás. Idêntico uivo de pavor ecoou, arrepiando-me por inteiro. Instintivamente busquei a causa da transformação. Caminhando a passos largos, aproximava-se o vigia noturno.

Era verão. Um calor mormacento estagnava o ar. A ramagem agitou-se inesperadamente. Uma rajada fria passou por mim e atingiu o vigia, arrancando o boné com o logotipo da firma de vigilância. Revelou-se uma farta cabeleira. Da melena esvoaçante desci para o bigode vistoso. Na altura da cintura a mão direita empunhava um revólver. Transtornado, vociferava:

— Eu disse que era perigoso. Por que não escutou?

A situação quedou-se malparada. Encurralado inapelavelmente, virei alvo fácil. Fiz menção de correr em busca de abrigo. Ele percebeu, enquadrou o corpo e engatilhou a arma.

— Vai, tenta. Me dá esse gostinho.

Dito isso, assestou a pontaria. Dizem que a vida passa como um filme ao enfrentarmos perigo mortal. Aconteceu diferente. Num relance vislumbrei vários espíritos guiados por mim rumo à luz. Desejei ardentemente sabedoria para reunir-me a eles em paz. Outra lufada gelada trouxe-me de volta à realidade. Vi o meliante medrar, girar e chispar alucinado. Laurinha e sua trupe o perseguiam voando céleres, rugindo, com os bracinhos espichados e os dedos curvados como garras. Tornaram-se visíveis e agiram em providencial socorro. Telefonei para a polícia e solicitei reforços. A captura do vigia encerrou décadas de horror e desvendou o enigma das crianças desaparecidas.

Apurações adicionais revelaram que na chácara trabalhara um sujeito de má índole. Arredio, preguiçoso e cruel. Comprazia-se maltratando pequenos animais, apesar de admoestado repetidamente. Ao concluir a venda, o chacareiro ficara aliviado em livrar-se dele. Para não deixá-lo desempregado, combinou com os compradores que o contratassem como operário ao menos durante a construção do empreendimento. Ingressou como ajudante de pedreiro, tendo participado desde o início das obras. Por conhecer o lugar e não ter moradia fixa obteve permissão para erguer um barraco na parte desocupada do terreno. Completando o rol de circunstâncias necessárias para o surgimento do monstro, logrou assumir o posto de vigia.

De acordo com os assentamentos do RH, portava-se como um funcionário exemplar. Pura fachada. O comportamento subserviente e pacato mascarava a faceta obscura do peão convertido em vigilante. No final do expediente, ao pilhar-se sozinho, tornava-se astuto predador. Caçava nos arredores, farejando vítimas frágeis e vulneráveis. Agiu contra adolescentes somente em duas oportunidades. Desistiu porque eram difíceis de dominar e o covarde evitava arriscar-se. Deliciava-se com o desamparo dos indefesos. Mantinha-os vivos para vê-los sofrer. Deleitava-se conspurcando sua pureza. Seviciá-los, aterrorizá-los e abusar de seus corpos de formas abomináveis levava-o à loucura.

Para prover a privacidade requerida por seus atos, construiu um quarto subterrâneo nos limites da propriedade, inicialmente camuflado pela vegetação, posteriormente com restos oriundos do canteiro de obras. Exerceu esse ofício sanguinário até 1998. Ao aposentar-se, precaveu-se indicando o primogênito para ocupar a vaga, garantindo acesso ao compartimento secreto. Flagrado pelo filho ao enterrar um de seus sacrificados, confessou sua perversão. Esperava ser denunciado às autoridades, porém ganhou um cúmplice. O fruto não caira longe da árvore. Ele herdara as taras do pai. Tornaram-se comparsas, convertendo a atividade numa competição amigável. Comparavam características de suas presas, pontuando aspectos pré-determinados. Tabelavam e analisavam os valores obtidos, fixando metas a serem atingidas. Para autenticar a posse, marcavam os capturados esmagando seus mindinhos com um alicate: o pai "assinava" o esquerdo, o filho o direito.

Além do porão/câmara de tortura os detetives acharam a vala utilizada pela dupla para descartar os despojos. Essa sequência foi longa e dolorosa. Levaram meses exumando cento e tantos corpos. Quinze não puderam ser identificados. Seis não tinham quem os reclamasse. No decorrer das escavações, interditaram a área para preservar a cena do crime, de modo que precisei adiar a solução do impasse: reunir Lídia e André. De quebra, orientar Laurinha e companhia a fazerem a passagem.

Encerrada a perícia, voltei a visitar André em sua pilha de pedras. Continuava refratário como antes. Refutava as tentativas de comunicação passivamente, sem esboçar reação. Certo dia, após uma série de investidas frustradas, Laurinha se manifestou:

— Não adianta, tio. A mãe dele não deixa ele falar com estranhos.

Lídia recusava-se a me dar crédito. Seguia sua rotina alheia aos meus conselhos. Reiteradamente indiquei a saída, inutilmente. Estava presa num ciclo de agonia e remorso por não ter protegido o filho como gostaria.

Desalentado pelo fracasso convidei Edgar para um café com grostoli na cafeteria do mezanino. Partilhamos nossas visões a respeito dos eventos horripilantes ocorridos naquele ambiente enganosamente seguro e a imprevisibilidade da natureza humana. Enveredamos por temáticas amenas, discutimos os lances da última rodada do campeonato gaúcho e concluímos com um silêncio consternado, ocasionalmente interrompido por Lídia. O rádio de Edgar chiou. Requisitavam o gerente para resolver emergências burocráticas. Estapeei a testa e exclamei:

— Eu sou um idiota!

— Concordo plenamente. — Edgar riu e foi atender a solicitação.

Pedi que voltasse trazendo dois aparelhos. A ideia era simples. Sintonizamos os dispositivos na mesma frequência. Levei um comigo. Edgar percorria os corredores rastreando as vocalizações de Lídia. Demorou para captar um sinal inteligível, pois ele contava apenas com a sorte para definir a origem do som. Em contrapartida, eu sabia exatamente qual posição tomar: na frente do monturo onde André jazia apático, de braços cruzados e bico fechado.

Lá pelas tantas soou um "Marco" razoavelmente audível pelo alto-falante. O semblante do garoto iluminou-se. Vibrava com incontida alegria. Lascou um "Polo" tão forte que varou distâncias e paredes. Num átimo senti a presença inequívoca de Lídia junto a nós. Enlaçaram-se com vontade, selando a união de almas separadas pela estupidez e pela maldade.

Comovida, Lídia emanava gratidão. O afeto materno curara as feridas de André e ela o tomou no colo, pronta a transmutar-se. Não conseguiu. André apertou seu rosto com as mãozinhas:

— Mãe, primeiro precisamos ajudar meus amigos.

Laurinha e companhia, sentindo-se alijados, espiavam ansiosos, carentes de amor, pidões por um colinho. Lídia ajoelhou-se, ofereceu o regaço. Havia espaço de sobra em seu coração. Correram a seu encontro. O palco da tragédia resplandeceu. Desapareceram. Missão cumprida, hora de voltar para casa.

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