O milagre das águas
Lá no meu Rio Grande, pras bandas da fronteira com os castelhanos, tem um rincão louco de especial. Um riacho comprido, de águas mansas e profundas, forma um remanso mui lindo. Colado a faixa de areia da praia começa um relvado com um tarumã macanudo no centro. Dá gosto vê-lo florido. Parece o recanto ideal para o vivente apreciar um mate ou estender o baixeiro e sestear. Não se engane paisano. Nem se aproxegue. Vários tauras fizeram parada, esqueceram a valentia e abriram os panos fugindo de assombração.
Passo do Enforcado é como le chamam. Não é fácil de achar. Fica oculto dos passantes da estrada por uns penedos. O nome funesto deve-se a conclusão de uma história difícil de aceitar que aconteceu.
Tome assento, sorva o amargo e escuite.
Nos tempos do Imperador isso tudo era sesmaria, posses do Major Demétrio. A duas léguas daqui ficava o rancho do posteiro Toríbio, peão de lei, valente, leal com os amigos e temente a Deus. Era casado com Sia Quinota. Dessa união nasceu uma gauchinha mimosa. Na pia batismal a nomearam Dolores. Vizinhos e parentes a chamaram Lola. A mãe, carinhosamente, Lolita.
Toríbio pelejava de Sol a Sol, tratando o gado da estância. Montava um garanhão malacara, digno da sua estirpe campeira. Certa feita, correu atrás de uma res desgarrada, um boi brasino de aspa larga. Armou o laço e jogou. Laçou a meia espalda e apurou o correr da corda para imobilizar o bicho. Nessa hora, assustado por cobra, o cavalo refugou. Toríbio caiu enredado embaixo do pingo. No entrevero, boi e cavalo o pisotearam impiedosamente. Morreu manietado parecendo bezerro à espera da faca do castrador.
Sobrevieram dias duros pra Sia Quinota e Lolita. A patroa carecia de tino pra comandar os agregados. Faltava-lhe o pulso de macho. Talvez por isso tenha afrouxado o siso e se amancebado com o Chico Torto, um tipo haragano, de maus bofes, que a enfeitiçou com umas coplas tiradas no violão.
Chico ganhara a alcunha de Torto, de acordo com o próprio, por ser rengo de uma perna. Ferimento de guerra mal curado. Mostrou-se o acerto do apelido ao revelar sua verdadeira índole. O rufião nunca fora trigo limpo.
Uns acreditavam ter ele saído fedendo do Massacre dos Porongos. Outros boquejavam ter combatido nas fileiras imperiais. Viravam a cara e cuspiam com nojo. Esclarecido o sucedido trocou-se orelha assuntando se o interesse do Chico era a Sia, o rancho ou a Lolita. Já lhe explico.
Ao festejar 16 primaveras, a gauchinha mimosa tornara-se uma prenda lindaça, capaz de trazer pelo beiço qualquer pretendente. Agregados e visitantes ocasionais comentavam o zelo exagerado do Chico Torto pela enteada. Segundo contam, lembrava um zorrilho esfaimado mirando pintinhos no terreiro. Salvo a mãe, que fazia vista grossa as investidas disfarçadas de chistes dirigidas a sua cria.
O veranico despontara cedo aquele ano. Numa tarde modorrenta, cumpridas as obrigações domésticas, Lolita achou por bem refrescar-se no tal lugar que então não se chamava Passo do Enforcado. Assunte como se preparam as cousas. Era costume levar uma ou duas negrinhas consigo. Sabe-se lá por que, foi solita. A vida é anssim, quando é pra ser não há quem faça acontecer diferente.
Caborteiro, o sotreta farejou a oportunidade. Esperou o suficiente para evadir-se sem ser visto e seguiu o rastro da garota. Chegou de mansinho, encoberto pelas macegas e ficou admirando a paisagem, se é que vancê me entende.
A inocente, por julgar-se segura, deixara o vestido pendurado num arbusto. Era de chita azul, com florezinhas amarelas a modo de enfeite. Banhava-se nas águas tranquilas do remanso do jeito que Deus a pôs no mundo.
Alheia a maldade próxima, não atinou com o padrasto pegando suas vestes. Triunfante, gabou-se assobiando e sacudindo os panos feito bandeira. Lolita, apavorada, mergulhou cobrindo o peito por vergonha, resguardando sua pureza da volúpia desenfreada. Conhecedora das ambições do Chico, decidira que ele jamais consumaria seu intento.
Passaram-se horas. O verme, divertido, aboletara-se num toco e fechara um baio. Pitava, o desgraçado, esperando Lolita implorar pelo vestido. Caçoava fazendo pouco. Volta e meia arremetida fingindo tentar alcançá-la. E ria!
O Sol descambava, alongando as sombras do arvoredo. Exausta e acuada, Lolita resolveu enfrentar a situação, fosse qual fosse o resultado. Aproveitou o momento em que ele se afastou para aliviar a bexiga, saiu e aprumou-se. Tiritava de medo e frio, que as noites de maio sabem ser geladas.
Ao retornar, Chico foi surpreendido pela atitude de Lolita. A visão das carnes rijas da moça nua em pelo, molhada da cabeça aos pés, açulou os mais baixos instintos daquele animal enlouquecido pelo desejo. Fez menção de se aprochegar. Levou uma pedrada na testa.
Contrariamente ao esperado por Lolita, ele permaneceu impávido. Esfregou a ponta dos dedos na ferida e lambeu o sangue. Sacou a adaga e a atirou a seus pés.
— Pra ninguém dizê que não lutastes pra manter intacta tua honra!
Rasgou a camisa exibindo o torço lanhado por incontáveis peleias. As cicatrizes provavam não temer nem talhos nem pontaços. Vencera torenas com o dobro do seu tamanho. Não seria uma franguinha a amedrontá-lo. Selou o destino de ambos. Lolita, ao ver-se irremediavelmente perdida, aprestou a lâmina e num vu cortou o próprio pescoço. O jorro tingiu de vermelho a pele morena, manchando a grama da mesma cor. Embasbacado, o Torto assistiu inerte a agonia apossar-se da pobrezinha, que preferiu morrer a entregar-se a sanha de um monstro.
Enraivecido pelo desfecho brutal do que, para ele, deveria ser pura diversão, Chico proferiu uma saraivada de impropérios. Chutou de leve o braço de Lolita certificando-se de sua morte. A ruindade lhe brotava do fundo dos ossos, entretanto não era burro. Se a encontrassem, ligariam lé com cré e as consequências seriam medonhas.
Carregou o corpo, largou encostado ao tarumã. Pegou o facão levado atravessado na guaiaca e, a planchassos, fendeu o chão, cavando compulsivamente. Tão compenetrado estava na tarefa que não percebeu a facilidade oferecida pela terra, abrindo-se docilmente para acolher a injustiçada.
Reluziam no firmamento as Três Marias quando deu-se por satisfeito. Acomodou Lolita no buraco. Fez do vestido mortalha, cobrindo-a com ele. Tapou-a de terra, empurrando os torrões afoitamente. Lavou-se no córrego e rumou para a venda do Furriel Antunes com a fuça limpa. Bebeu canha e jogou truco pra arejar os pensamentos.
A ausência de Lolita causou alvoroço. Ela era o ai-Jesus de Sia Quinota e muito estimada por todos. O mulherio rezou novenas. Os homens organizaram patrulhas, campearam léguas, escarafuncharam rincões, vadearam rios, sangas e açudes cutucando o lodo com longas taquaras. Inutilmente. Não acharam sinal da moça.
A polvorosa durou quiçá uns dois meses. Assentada a poeira deram-na por desaparecida. Chico Torto respirou aliviado. Entrementes, outra desgraça germinara desapercebida. Cerraram-se os céus. Nem um pingo de chuva caíra desde o sumiço de Lolita e só agora davam-se conta disso. Passou-se um ano e, aos poucos, tudo foi mermando pela falta d'água. Perdeu-se a criação miúda, o verdeio amarelou, o gado emagreceu, as lavouras murcharam. Uma tristeza sem precedentes cobriu os campos, a gente e os animais. A secura foi tanta que nem os maiores rios aguentaram. Minguaram até esgotarem por completo. Inclusive o remanso.
No verão seguinte a fome se alastrava e a estância sofria com os efeitos da estiagem. A peonada virara tatu, cavocando poços e cacimbas. O vigário puxava procissões. Os paroquianos faziam promessas a seus santos de devoção. Infelizmente nada amenizava a penúria.
Certo dia, Sebastião, Alípio, Bernardino e um piazito, afilhado do primeiro, filho do segundo, campeavam a procura de água. Alípio era mestre no uso da forquilha e arrastava o herdeiro para ensinar-lhe o ofício. Saiam apetrechados, na esperança de localizar uma fonte subterrânea e salvar o pago do extermínio. Estrompados ao final de uma manhã de caminhadas infrutíferas, sentaram-se para descansar nas raízes de uma figueira ressecada. Ataram uma lona nos galhos para proteger-se da inclemência do Sol. Comeram a merenda rala trazida nos embornais e sestearam, refazendo as forças. Menos o piá. Deitou mão na forquilha e saiu teatino, imitando os trejeitos do pai.
Vancê vai dizer que é mentira, mas olhe que é verdade. Ao chegar perto de uma vereda, o moleque sentiu um tremelique fraco. Pensou ser o vento e prosseguiu. De novo o tremelique, forte. Enveredou pela senda aberta entre pedras enormes. Não deu um quarto de hora e voltou deitando cabelo, berrando alucinado:
— Pai, padrinho, acudam!
O trio, alarmado pela gritaria e apalermado pela modorra, supôs ser ataque de emboscada. Alípio compareceu de arma em punho.
— Que passa guri? Quer nos matar de susto?
Emudecido, o piá agarrou Alípio pela manga e o conduziu através do passo. O quarteto estacou boquiaberto ao divisar o tarumã florido no centro do gramado exuberantemente verde.
Seguiram incrédulos na direção da visagem. Só depois de tocar o tronco rugoso e sentir as flechilhas da relva no chão convenceram-se do fato. Desfrutaram o frescor da umidade matutando. A única explicação possível para desmedida exuberância era a existência de um manancial sob seus pés. Abraçaram-se eufóricos! Aviaram as ferramentas e iniciaram a escavação. Ao golpear com a enxada Sebastião estranhou a maciez do solo e avistou uma mancha azul, cravejada de florezinhas amarelas. Sinalizou que parassem e começou a juntar nacos de terra com as mãos.
Compreenderam bulhufas. Destamparam o achado cuidadosamente. Ressabiado, Sebastião levantou o tecido. Os quatro fizeram o pelo-sinal umas tantas vezes perante o rosto sereno de Lolita. A menina parecia dormir. Os três cueras, calejados pelas dificuldades, endurecidos pela lida, curvaram-se em reverente oração, encomendando a alma da infeliz.
Despacharam o piá pra venda do Furriel Antunes com a missão de alertar o povoado. Exumaram o cadáver. Apesar de ter ficado dois anos debaixo da terra não apresentava máculas ou sinais de corrupção. Bernardino usou o lenço para limpar o corte no pescoço, mortificado por tamanha barbaridade.
Faltando duas braças para o pôr-do-sol escutaram, trazidos pelo vento, prenúncios da aproximação do povaréu:
— ... Ad te clamamus, exsules filii Evae...
Eram as beatas entoando o Salve Regina, escoltadas por vozes difusas de quem não conhece o latinório e teima recitar junto.
Formou-se um ajuntamento ao redor da cova. As mulheres rezavam, os homens tiravam o chapéu em sinal de respeito. O padrasto suava em bicas, temendo ser descoberto. Sia Quinota, amparada por uma sua comadre, viera na culatra. Andava devagar, temerosa de ver Lolita naquele estado. Abriram-lhe passagem, compungidos pela sua dor. Ela mal pode crer no que viu. Ajoelhou-se ao lado da filha, acariciando os cabelos, deslizando os dedos pela face pálida. Segurou o queixo com o polegar e o indicador, descolando os lábios. Com a mão livre, discretamente, escorregou um vintém entre os dentes e tornou a fechar-lhe a boca. Contrita, baixou a cabeça e clamou silenciosamente por vingança.
O Torto postara-se as espaldas da Sia Quinota e acompanhara atentamente cada gesto, sem entender o ritual. Ignorava o poder do malefício de uma mãe privada do mimo da sua vida e a extensão da justiça divina. Aparvalhado, viu pulular do olho esquerdo, a seguir do direito, gotículas de sangue vermelho vivo. O povo recuou horrorizado, santiguando-se freneticamente. Como se não bastasse tal prodígio, altearam-se as pálpebras, expondo as bolitas negras sobre o branco dos olhos que, delatores, viraram-se justamente para seu algoz.
O reboliço foi tremendo. Sia Quinota ergueu-se, encarando o amásio com firmeza acusatória. Chico escapuliu antes que alguém atinasse com o significado da profecia. Entonces, o sangue dos olhinhos converteu-se em torrente de lágrimas. Do talho no pescoço escorria borbotões de água cristalina. A defunta vertia um caudal inesgotável por todos os poros.
Sebastião tomou a enxada. Cavou valetas, canalizando o precioso líquido para o leito seco do rio. Anônimos se apartaram da chusma e a ele se associaram, visto que a abundância superava a capacidade da obra mui rápido. Vigiaram Lolita diuturnamente por semanas. O milagre cessou assim que o volume do rio atingiu sua antiga marca.
Escorrida a última gota, mãos piedosas a secaram, ajeitaram suas madeixas e a vestiram com a camisola branca dos inocentes. Deitaram-na num caixãozinho de cabriúva e a transportaram de carreta a igreja, onde foi velada e admirada por romeiros oriundos de toda parte. Ao cabo de três dias encerraram as celebrações com uma missa de corpo presente. Devolveram-na à cova original, pois suicidas não adentravam o Campo Santo. Devotos liderados por Sia Quinota construíram a ermida que mantém viva a memória de Dolores.
Enquanto a boa gente velava Lolita, Chico Torto atava uma soga num galho grosso da árvore sob a qual escondera o fruto de seu desatino. Nunca mais molestou quem quer que fosse.
* * *
Este conto é uma singela homenagem a João Simões Lopes Neto, considerado o maior autor regionalista do Rio Grande do Sul. Em suas obras Contos Gauchescos e Lendas do Sul registra com inegável maestria as tradições e as histórias contadas pelos gaúchos, preservando suas peculiaridades e rico vocabulário regional.

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