Bola de Capotão
Maneco, Lipe e Raspa de Tacho, ou simplesmente Rapa, formavam um trio inseparável. Os unia a origem humilde, o bairro no qual moravam, a escola que frequentavam e a alegria de perambular pela vida despretensiosamente. Desfrutavam das tardes pedalando, trocando figurinhas ou jogando peladas memoráveis com bolas de meia. Enfim, uma infância saudável.
Infelizmente o mundo estava longe de ser perfeito. Um conflito eclodira no estrangeiro e os brasileiros foram convocados a lutar. Preocupado, o pai de Lipe ouvia as notícias filtrando a chiadeira do rádio capelinha. Ao anunciarem o embarque de pracinhas para combater na Europa largou uma frase que não fez sentido aos ouvidos do menino:
— Quem diria. A cobra fumou ...
Decorridos poucos meses outra notícia desagradável impôs a crueza da realidade na inocência pueril dos três amigos. O tio predileto de Rapa sucumbiu à tísica. Disseram que recusara terminantemente a internação no sanatório, preferindo tratamentos caseiros a base de chás de jatobá e goiabeira. Morreu vertendo sangue pela boca. Pouquíssimas pessoas dignaram-se a comparecer ao velório. Foi preciso recrutar os sobrinhos para fazer volume, uma vez que parentes e conhecidos não queriam ver-se associados a um tuberculoso. O prematuro contato com a morte calou fundo. O rosto macilento do defunto atormentou seu sono anos a fio.
Enterraram-no as pressas, no setor destinado aos indigentes. Rapa seguiu o cortejo agarrado à barra da saia da mãe, impressionado com a atmosfera lúgubre do cemitério. O aspecto geral era de desleixo. Viu muitos sepulcros imundos, alguns depredados. Ao passarem por um deles sua mãe cutucou o marido:
— Não esquece de ajeitar a sepultura dos meus pais antes do Dia de Finados. A parentada vem em peso visitar. Se estiver bagunçado ficam falando pelas costas.
Nem tudo eram agruras.
D. Zelinda, mãe de Maneco, era doceira. Às terças, dia de feira, preparava baciadas de cocada e pé de moleque. Chamava o filho e o incumbia de vender os quitutes aos fregueses das barracas enfileiradas em torno da praça. Este avisava os parceiros e iam os três apregoando as delícias aos gritos de:
— Olha a cocada fresquinha!
— Pé de moleque, vizinha. Vai querer?
A incumbência virava farra e diversão. Ao retornar com os tabuleiros vazios, ganhavam uns trocados imediatamente depositados na lata de leite em pó convertida em cofre e avaramente oculta numa das vigas de sustentação do casebre de madeira. Poupavam para concretizar um sonho: largar as incômodas bolas de meia e jogar no estilo dos campeões. Ou seja, ansiavam comprar uma bola de capotão! Economizavam há tempos, contudo o artigo era caríssimo. Não custava menos de trezentos cruzeiros e o rendimento obtido com a venda dos quitutes era minguado. Não recebiam mesada, nem se atreviam a pedir como presente de Natal, conscientes das dificuldades enfrentadas por suas famílias. Nesse ritmo, levariam séculos para completar o valor necessário. Maneco, sentado no chão com a lata entre as pernas, sentenciou:
— Precisamos de grana moçada. Sugestões?
Lipe, o sensato, sugeriu trabalharem como entregadores no armazém do Seu Joaquim. Toparam e desistiram na sequência. A ideia era boa, todavia o proprietário do estabelecimento os obrigava a transportar cargas enormes, por longas distâncias, a troco de parcos caraminguás.
Na Festa de Cosme e Damião saíram a cata dos cobiçados saquinhos. Concluíram a peregrinação no quintal da casa do Rapa, dividindo os ganhos sob a sombra frondosa da jaqueira. Pensativo, o caçula do grupo desenhava formas indistintas no areão do terreiro. Uma triste recordação perpassara sua mente, deixando uma visão a ser compartilhada com os companheiros:
— Sabe o que dá dinheiro?
Não sabiam. Se soubessem não estariam tendo aquela conversa. Rapa continuou:
— Limpar túmulo no cemitério.
Maneco e Lipe suspenderam, emudecidos, a disputa por uma barra de marzipã. Refeitos do susto, pensaram no assunto. No Dia de Finados o povo acorria à Cidade dos Pés Juntos para homenagear seus entes queridos. Dispendiam tempo e esforço embelezando a derradeira morada dos antepassados para reverenciá-los. Certamente apreciariam transferir a responsabilidade e pagar uma módica quantia para isso. Dispunham de mês e tanto para agir e o investimento seria mínimo. Bastava surrupiar baldes, escovas e sabão de suas casas. Água estaria disponível no local. Combinaram manter sigilo para evitar a inevitável bronca dos pais. O campo-santo ficava na vizinhança, então podiam ir caminhando. Quando não estavam na escola, estavam na rua. Ninguém notaria sua ausência até o cair da noite e, decididamente, eles não pretendiam ficar lá após escurecer.
No dia seguinte, encostados no muro com os instrumentos ostensivamente a mostra, aguardavam clientes. Logo descobriram o significado da expressão "reserva de mercado". Bandos mais antigos detinham o monopólio da atividade. Intimidavam os recém-chegados ameaçando-os descaradamente.
A situação quedara-se malparada. Mantinham-se firmes, revoltados com a atitude descortês da concorrência. Rapa propôs atrair a atenção de potenciais interessados:
— A gente escolhe um túmulo abandonado, bem sujo, e limpa direitinho pra todo mundo ver que somos os melhores!
Procuraram e localizaram um, tapado de poeira, ervas daninhas e olvido. Suaram para deixá-lo nos trinques. A cada passante um deles interrompia o que fazia e divulgava o serviço.
Uma horda antagônica aproximou-se para debochar do empenho e por estarem ralando de graça. Ignoraram a provocação e prosseguiram faxinando. Ao darem por concluída a tarefa, um dos pirralhos atirou um punhado de terra, prontamente seguido pelos cupinchas. Emporcalharam o túmulo e fugiram cantando e dando gargalhadas. Indignados, permaneceram inertes avaliando o prejuízo. Apenas um rapazote manteve-se junto a eles. Julgaram ser um dos meliantes.
— Satisfeito? — esbravejou Lipe.
— De modo algum. — respondeu o garoto — Fizeram maldade e não gosto disso.
Ele era loiro melado, magricelo e vestido como quem vai à Primeira Comunhão: camisa branca abotoada até o gogó, calça preta e sapatos marrons com os cadarços perfeitamente atados.
— Parece que a vaca te lambeu. — brincou Maneco, aludindo ao cabelo gomalinado do outro.
O riso franco quebrou o gelo, afastando o azedume provocado pelo ataque. Confraternizaram alegres. O trio consertou o estrago e preparou-se para defender a "vitrine" de novas investidas.
Avistaram os concorrentes agrupados ao redor da torneira. Agitavam braços e cabeças, tentando extrair alguma coisa do encanamento. O fornecimento de água havia sido cortado.
— E agora? Sem água, sem limpeza, sem pagamento. — resumiu Rapa.
— Eu sei onde tem uma fonte. — cochichou o loirinho.
— Desembucha Alemão! — instigou Maneco.
Ganhar um nome de guerra significava admissão ao time. O novo membro sorriu, contente por retribuir a demonstração de apreço com uma dica tão valiosa.
— É perto daqui, mas precisa obter a permissão da dona.
A condição pareceu razoável e os guris se dirigiram ao portão do cemitério.
— Não é por aí. — disse Alemão — Sigam-me.
Rumaram para a ala antiga, no coração da necrópole. A alameda, ladeada por ciprestes e imponentes monumentos, dava arrepios. Ao concluir a caminhada encontraram uma garotinha sentada em cima de uma campa. Regulava em idade com Rapa. O vestidinho claro, enfeitado com fitas e babados, contrastava com o granito negro. O chapeuzinho de palha com um laçarote engraçado realçava sua candura, desmentida pelo olhar penetrante e algo malévolo. Maneco, orientado previamente por Alemão, adiantou-se e explicou o motivo da visita. Grata pela deferência, a mocinha consentiu e eles puderam servir-se a vontade da mina jorrando copiosa ao lado do jazigo.
O desabastecimento colheu os faxineiros de surpresa, impossibilitando a execução de seu ofício. Tirante a turma do Maneco que, inexplicavelmente, aparecia sempre com os baldes cheios. Os adversários, com os estoques esgotados, cercaram Rapa para tirar satisfações:
— Aonde vocês conseguem água?
Acuado, temendo levar cascudos, o pequeno revelou o segredo. Ao contrário do esperado, os agressores se retiraram lentamente, de marcha ré, olhos fixos nele. Vários faziam o sinal da cruz compulsivamente. Sumiram do cemitério e os deixaram donos do pedaço.
Os negócios iam de vento em popa, visto serem os únicos em condições de atender a crescente demanda. Quanto mais próximo do Dia de Finados mais e mais solicitantes recorriam a seus préstimos.
Nem tudo eram flores.
A pior parte consistia em carregar os pesados baldes da fonte ao local da lavagem. Revezavam-se constantemente. Um aguadeiro para dois lavadores. Alemão acompanhava-os sem participar do revezamento, talvez por medo de sujar seus trajes domingueiros.
Havia os mesquinhos reclamões. Exigiam perfeição no acabamento e mendigavam descontos na hora de pagar. Outro tipo, não tão comum, recebeu o apelido de Fiscal. Espreitavam palpitando, apontando falhas, ralhando ininterruptamente. Eram bizarros, vestiam roupas esquisitas. Alemão tinha um jeito especial de lidar com esses. Os acalmava proseando. A partir daí observavam calados. Finalizada a limpeza, sumiam. Por sorte nunca eram os contratantes e as moedas tilintavam na lata de leite em pó.
Às terças Maneco desfalcava o plantel bancando o vendedor de quitutes. Não podia faltar ao compromisso, pois comprometeria o sigilo da "Operação Cemitério". O lado positivo era o farnel de gostosuras trazidas por ele no final do expediente. Sentavam-se no meio-fio de uma alameda qualquer e degustavam prazerosamente as cocadas e pés de moleque de D. Zelinda. Salvo Alemão. Eles regalavam porções generosas. Ele balançava a cabeça negativamente e dispensava a oferta.
— Sobra mais pra nós — comemorava Lipe, de boca cheia.
A última semana de outubro foi movimentadíssima. Gazetearam aulas para dar conta dos pedidos. Na sexta-feira, 27, tinham encomendas até quinta, 2 de novembro! Neste dia o fluxo intensificou-se e tiveram que acomodar várias solicitações repentinas; cobrando uma taxa de urgência, é claro.
No encerramento do horário de visitação, exaustos, reuniram-se em volta daquele primeiro túmulo, marco inicial do sucesso da empreitada. Ofereceram parte do montante arrecadado ao novato. Alemão, recostado na lápide, recusou com um gesto, acrescentando:
— Comprem a bola, sejam felizes e aproveitem a vida. Peço que guardem minha lembrança em seus corações.
As palavras, descabidamente solenes, destoaram do espírito folgazão dos demais. Passaram desapercebidas.
Ao se despedirem, Rapa estranhou o fato dele não acompanhá-los:
— Você não vai pra casa?
— Eu estou em casa — disse.
E sumiu.
Intrigados, inspecionaram o ponto onde Alemão sentara. Perceberam a existência de um porta-retrato com tampa, protegendo a foto do falecido. Abriram-no. O interior estava coberto de pó. Rapa usou um trapo úmido para limpá-lo. Surgiu a imagem do amiguinho fardado de goleiro, segurando uma bola de capotão debaixo do braço direito. Ria para o fotógrafo e agora para eles. Apavorados, escafederam-se batendo com os pés na bunda.

Vamos jogar que agora tem bola!
ResponderExcluirSó depois que eles pararem de correr!
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