Jane Loira e o caso do círculo de biguás


Obras de ficção tendem a romantizar algumas profissões, em especial a de repórter investigativo. Livros, quadrinhos e cinema alucinam os fãs do gênero de ação com histórias ricas em perigo e aventuras, como se esses profissionais fossem indestrutíveis e imunes a falhas de julgamento.

Jane Loira, assim chamada para diferenciá-la da xará morena, colega de redação, decidiu alijar estes pensamentos intrusivos motivados pelo rancor e pelo tédio. Arrancou um talo de capim para mordiscar. Precisava concentrar-se no trabalho: vigiar bandos cada vez maiores de biguás voando em círculos concêntricos, recortados contra o azul do Céu.

Nelson postou-se a seu lado, firmou as pernas e apontou a câmera fotográfica para o alto. Jane debochou:

— Vais fotografar os biguás com essa velharia?

O dublê de motorista, ajudante e fiel escudeiro retrucou galhofeiro:

— Respeite a mãe de todas as câmeras. Essa belezinha usa filme 6x9 e está equipada com tele de 500mm.

Calaram-se enquanto Nelson manuseava a relíquia com reverente cuidado. Jane ajustou o equipamento digital para gravar a chegada de outro bando. Ambos eram velhos conhecidos e compartilhavam vitórias e derrotas com o mesmo entusiasmo. A empreitada anterior fora desastrosa e Jane sofria por ter arrastado Nelson para o buraco onde estavam, literalmente, atolados na lama.

O infortúnio começou em decorrência de uma série de reportagens produzidas a pedido do último jornal em papel com credibilidade na face da Terra. A dupla mergulhara de cabeça para trazer à tona segredos ocultos na Deep Web. Em retaliação, facções criminosas poderosas, cujos lucros foram prejudicados pelas matérias incisivas publicadas, montaram uma elaborada farsa. Atores caracterizados como pesquisadores de uma importante universidade de Washington alegaram interesse em estudar o famigerado Pé Grande de Camaquã. Entraram em contato com Jane e a convenceram a documentar a suposta expedição. Maldosamente, divulgaram boatos na imprensa achincalhando a credulidade da repórter. Sua reputação caiu em descrédito, perdeu o emprego, os amigos evaporaram, a renda minguou. Por sorte, Nelson descolara o contrato atual graças a um de seus camaradas da área de produção de documentários: registrar o que biólogos consideravam um comportamento anômalo dos biguás. Na verdade, a vaga mantivera-se disponível porque ninguém topara se enfurnar naquele fim de mundo a troco da remuneração irrisória oferecida pelo Instituto Biológico Alagados do Sul - IBAS. O próprio Instituto penava com a escassez de verbas e não podia pagar o cachê outrora cobrado por Jane.

Há semanas acampavam às margens da Lagoa dos Patos, numa prainha remota localizada entre Mostardas e Butiás. Dispunham da infraestrutura mínima para sobreviverem isolados por longos períodos filmando e fotografando a natureza exuberante do lugar. O único luxo, se podemos chamar de luxo, era a conexão via satélite com a Internet.

Jane pegou o tablet para checar mensagens. IBAS informava o avistamento de inúmeras revoadas dirigindo-se para suas coordenadas, aumentando exponencialmente a quantidade de animais reunidos. Interrompeu a leitura ao ouvir Nelson vociferar:

— Ponte que partiu! 

Era um gentleman, não proferia palavrões.

A moça voltou-se com um chiste na ponta da língua. Foi vigorosamente contida por Nelson:

— Olha pra cima Loira!

Jane obedeceu atônita. Ficou perplexa. Exatamente no centro da enorme circunferência desenhada pelos biguás surgira um artefato colossal. O diâmetro da base redonda equivalia a um estádio de futebol. Assemelhava-se a um cone truncado. Fuselagem lisa, brilhante, com sulcos e protuberâncias a intervalos regulares. Difícil estimar o tamanho. Facilmente ultrapassava quarenta metros de altura.

Passado o sobressalto, respirou fundo. O sangue-frio fluiu em suas veias. Acostumara-se ao impensável cobrindo catástrofes, cenários de guerra e, pasmem, eventos paranormais. Regulou o foco e o enquadramento. Externamente aparentava calma. Vibrava internamente. Aquilo era o bilhete para escaparem do limbo profissional.

Temendo perder o momento, Nelson seguia fotografando com a máquina manual.

A súbita aparição do OVNI não encerrou o rol de surpresas. Outro objeto voador emergiu do topo, esse bem conhecido: um avião a jato. Parecia minúsculo rente ao cone. Em função da altitude não conseguiram identificar a marca ou modelo. Voava erraticamente, fazendo piruetas desengonçadas. Estolou, amerissando pesadamente a centenas de metros. Seguindo a direção do estrondo, avistaram a aeronave semissubmersa junto a um banco de areia estendido lagoa adentro.

— Será que há risco de explosão? — perguntava-se Jane, chapinhando entre juncos, tentando aproximar-se do local do acidente.

— Pare!

Jane procurou Nelson. O mancebo desviara-se da rota, pois hesitava molhar as canelas. A advertência não poderia ter partido dele.

— Volte, precisamos conversar.

Novamente a voz. Desta feita a Loira sentiu soar na sua mente. Deu meia-volta, contrariando sua determinação de prosseguir. Divisou um personagem inusitado postado sob a sombra de uma pitangueira. Aspecto mediano, cabelos brancos, vestindo um macacão prateado. Foi até ele guiada por um impulso irresistível. Ao chegar perto do personagem, este estendeu-lhe a mão com quatro dedos de um jeito esquisito.

— Sou Placto. 

Ela retribuiu o cumprimento, desconfiada.

— Jane, repórter investigativa.

— Desculpe a rudeza. É para sua própria segurança.

Sem arredar a atenção do interlocutor, Jane notou a aproximação furtiva de Nelson com sua câmera analógica em punho. Não tivera tempo de trocar de equipamento.

— Se corro perigo a culpa é tua — provocou.

Agora Placto verbalizava em alto e bom som:

— De fato, embora não voluntariamente. Por favor afastem-se até os socorristas concluírem o resgate.

— E se não nos afastarmos?

— Evitamos ao máximo interferir na vida dos nativos. Caso insistam serei forçado a obrigá-los. 

— Ok. Façamos um trato. Eu e o Nelson retornamos ao acampamento, tu vai lá e explica o que aconteceu. Pode ser?

Placto vacilou por alguns instantes. Assentiu com a cabeça, confirmando:

— Estamos de acordo. Nos encontraremos ao anoitecer.

Malgrado o ardente desejo de bisbilhotar o procedimento dos socorristas, Jane alcançou Nelson. Voltaram radiantes, comentando os acontecimentos recentes. O rapaz trazia uma informação perturbadora:

— O avião acidentado é um Xavante, provavelmente da década de 1970.

Jane reagiu com incredulidade:

— Desde quando te arvorastes especialista em aviação Nelson?

— Desde que colocaram um destes em exposição no museu da Universidade onde estudei. Tô falando Loira. Parece novo, mas é muito antigo.

Não havia por que duvidar do parceiro, cujo apelido era Enciclopédia Ambulante. Além disso, as circunstâncias indicavam a presença de abundantes caroços debaixo daquele angu. Despontou-lhe uma possibilidade:

— Estás com a bússola dos Lobinhos?

Ao completar dez anos, Nelson ingressara na Alcateia Graxains do Sarandi. Na cerimônia de incorporação recebeu do pai, já falecido, o instrumento "para orientá-lo nas estradas da vida". Carregava-o sempre consigo para reverenciar a memória do velho. Entregou-o a Jane. Imediatamente a Loira conferiu a localização dos pontos cardeais e bradou:

— Bingo! Bagunçaram o Norte. A agulha enlouqueceu.

Nelson segurou a bússola e inspecionou atentamente o visor.

— Alteraram o campo magnético da Terra — afirmou pensativo ao guardá-la no bolso.

Olharam interrogativamente para a forma gigantesca pairando acima deles. Incalculáveis biguás a circundavam, formando uma mancha escura e agourenta cuja proporção ameaçava bloquear a passagem da luz solar.

Naquela tarde constataram que o sinal do satélite sumira. Perdida a conexão, Jane cogitou irem ao vilarejo mais próximo no jipe fornecido pelo IBAS. A distância e as más condições do terreno a fizeram descartar a ideia. Seria impossível ir e voltar antes da visita de Placto e ela preferia atender o visitante na companhia de Nelson. Bolara um plano e a participação do cúmplice era essencial. Dispuseram a parafernália de gravação em torno de um estúdio improvisado com duas banquetas e uma mesinha. Deixaram tudo pronto para a primeira entrevista intergalática a ser conduzida pela intrépida repórter.

O Sol descambara e os bichos noturnos deram início a sua tradicional cantoria. O friozinho aconselhou o uso de casacos. Postaram-se numa clareira a beira d'água, apreciando a tranquilidade da imensa massa líquida. A nave alienígena desaparecera. Persistiam os biguás, assinalando sua posição presumível. Uma neblina densa ocultou a lagoa com seu manto. A Lua Cheia estava a ponto de surgir e eles foram ofuscados por uma forte luminosidade amarelada, contudo não era ela. Placto surgiu ao lado deles, pregando-lhes um belo susto.

— Aqui estou, conforme o prometido.

Jane recepcionou-o com cortesia. Conduziu-o até o estúdio e perguntou se desejava beber algo:

— Café? Chá? Quem sabe um chimarrão?

— Não obrigado. Consumimos o que necessitamos na Nave Capitânia.

— Pensava ser esta a Nave Mãe. Se ela é a Capitânia cadê a frota?

— Espalhada por diversas partes deste planeta em missão de reconhecimento.

— E a Nave Mãe?

— Orbitando uma das luas de Júpiter.

Antes de continuar conversando, Jane explicou o propósito da parafernália. Fariam um registro para revelar aos terráqueos os ilustres visitantes. Placto permaneceu impassível. Sentaram-se, acenderam-se os holofotes e Nelson apertou o botão Iniciar.

Jane pediu que fizesse uma apresentação sucinta de si e de seus conterrâneos. O entrevistado contou que Placto era uma simplificação de seu verdadeiro nome, uma vez que as pregas vocais humanas não são capazes de reproduzi-lo adequadamente. Os habitantes da astronave pertenciam a uma civilização expedicionária, situada a incontáveis anos-luz da Terra. Apesar de sua avançada tecnologia levavam séculos de uma galáxia a outra.

Para contornar esta dificuldade nasciam, viviam e morriam nas "aldeias espaciais", veículos especialmente projetados para abrigar e suprir as necessidades das populações nômades, permitindo que sucessivas gerações se encarregassem de dar continuidade a atividade exploratória. Seu objetivo era conhecer novos mundos, audaciosamente indo aonde plactiano (na falta de melhor gentílico) algum jamais esteve. Tinham como princípio básico a não interferência, por isso mantinham-se camuflados.

— Qual é o teu posto na hierarquia da tripulação?

Placto não entendeu de imediato. Dada a demora em responder, Jane inferiu que ele dependia de ajuda externa. Por fim revelou que a organização social da sua espécie abolira a estratificação adotada pelos humanos. Havia o Grupo de Notáveis, um conselho deliberativo composto pelos anciões da comunidade, responsáveis por administrar o funcionamento harmonioso da coletividade. Para fins de compreensão, deveriam considerá-lo um Oficial de Ligação ou simplesmente o Relações Públicas da espaçonave.

— Muito bem Senhor RP Sideral. Explique por que estão de posse de um jato militar brasileiro fabricado há 50 anos, no mínimo?

— Simples. Essa aeronave apresentou defeito durante uma missão e o piloto ejetou. Antes que se espatifasse no solo uma de nossas naves a salvou com o raio trator. Posteriormente foi transferida para cá. Dispomos de oficinas específicas para analisar e reparar mecanismos desse tipo. 

Na sequência Jane fez a pergunta óbvia:

— O que aconteceu hoje de manhã? Por que o Xavante caiu e desativaram a camuflagem?

A repórter tocara num tópico delicado. Finalmente o fleumático Placto demonstrou perturbação:

— Esse assunto é um tanto embaraçoso para nós. Vou esclarecer os fatos como um gesto de boa vontade entre nossos povos. De modo similar aos terráqueos, nós também constituímos famílias com o intuito de procriação. Nosso ciclo de crescimento é lento comparado ao de vocês, porém as fases de amadurecimento são praticamente as mesmas. Consequentemente a população é formada por indivíduos de diversas faixas etárias. Uma turma de adolescentes, entediados pela rotina, resolveu passear ao ar livre desacompanhados. Temos regras rígidas quanto a isso e eles só poderiam ter saído acompanhados de um tutor.

Jane esforçava-se para manter-se séria. Placto tinha-se em alta conta. Admitir a ousadia pueril dos jovens transgressores o constrangia profundamente.

— Burlaram a vigilância e invadiram o depósito onde guardamos os dispositivos recolhidos. Pretendiam evadir-se em três aparelhos voadores. Lograram dar partida em apenas um, o Xavante. Para liberar a saída os comparsas do piloto desligaram o campo de força do portão que dá acesso ao exterior. Ao fazê-lo, por imperícia, derrubaram o gerador de refração que impede a identificação da nave.

— E a queda?

— A turbina sugou vários pássaros e entrou em pane.

— O arremedo de piloto se feriu?

— Sim, sofreu escoriações leves. Ele e os demais envolvidos serão encaminhados para reabilitação. Asseguro que isso não se repetirá.

— Folgo em saber.

Jane assumira um tom professoral:

— O senhor ou o Grupo de Notáveis tem conhecimento que os biguás são naturalmente sensíveis a campos magnéticos e os utilizam como mapas de navegação?

— Não fazia ideia ...

Depois de começar a Loira tornava-se implacável:

— O senhor saberia informar se a Nave Capitânia gera força magnética para algum propósito?

— Certamente. É a correlação antagônica das forças gravimétricas e magnéticas que a mantém geoestacionária sobre a lagoa.

— Por acaso o senhor ou o Grupo de Notáveis suspeitaram que a Nave Capitânia está alterando o campo magnético da Terra, afetando o comportamento dos biguás? E que este é o motivo deles voarem perto o suficiente para serem sugados pelas turbinas do Xavante?

Arrematou triunfante:

— Trocando em miúdos, o princípio da não interferência foi pro brejo há meses.

As feições humanas de Placto eram incapazes de emular emoções. Em contrapartida o RP emanava ondas telepáticas aos borbotões, inundando as mentes de Nelson e Jane com sensações de confusão e vergonha. Solicitou uma pausa para confabular com os Notáveis. Repetiu mecanicamente o manifesto enviado por eles:

— Queridos terráqueos. Admitimos não perceber o transtorno causado involuntariamente. Pedimos sinceras desculpas e prometemos corrigir o problema o mais rapidamente possível.

A seguir, Placto despediu-se e retornou à nave.

Jane e Nelson revisaram a gravação e confirmaram que o HD armazenara duas horas de estática. O mesmo ocorrera com as fotos e filmagens realizadas anteriormente, nas quais aparecia qualquer indício dos alienígenas. Jane fez um muxoxo e acrescentou:

— Patifes! Querem abafar a cagada!

Ao contrário de Nelson, a Loira abusava dos palavrões.

— E os negativos?

— Ficaram ótimos. Registrei a Nave Capitânia, o Xavante e o Placto.

Pelo visto os extraterrestres conheciam somente tecnologias modernas. Ignoraram a existência dos fotogramas processados na câmara escura trazida por Nelson. Jane o abraçou efusiva e jurou parar de debochar da mania de colecionar cacarecos!

No entardecer do dia seguinte os biguás principiaram a se dispersar. Buscavam alimento em paragens distantes, voando na característica formação em "V". Aos poucos tudo se normalizava. Os dois questionaram-se se o fenômeno acabara devido à ausência da nave ou da interferência. Empacotavam as tralhas para partir quando receberam uma mensagem telepática de Placto: "Aguardem show de luzes no Céu esta noite".

Dito e feito. Às 23h45 um zumbido anunciou o espetáculo. A miríade de estrelas pontilhadas na escuridão foi embaçada pelo brilho cintilante do cone, emanando cores e matizes indescritíveis. Ao final, sumiu sem deixar vestígios.

— Filmou?

— Tudinho — disse Nelson colocando a filmadora mecânica no estojo.

— Tão evoluídos e tão ingênuos — filosofou Jane. — Em breve serão manchete em todos os jornais do planeta!

As descobertas ocorridas às margens da Lagoa dos Patos renderam uma infinidade de artigos fartamente ilustrados com as fotos tiradas por Nelson com a Mãe de Todas as Câmeras. O filme da Nave Capitânia piscando viralizou instantaneamente, rendendo milhões de visualizações nas redes sociais. A comprovação de que não estamos sós no Universo dividiu a audiência entre céticos e adeptos. Jane e Nelson eram indiferentes. Estavam de volta ao mercado e aceitavam as propostas mais vantajosas.

A consagração ocorreu em 2030 após a NASA divulgar imagens obtidas pela sonda Europa Clipper ao chegar no seu destino: a lua Europa, de Júpiter.

* * *

Este conto foi selecionado para participar da Antologia Arquivo Alien, da Editora Casa de Prometeu, a ser lançada em 2026.

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