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Marco

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Os últimos meses não foram fáceis. Precisei enfrentar um incidente tenebroso, com desdobramentos terríveis, entremeado de crueldade e ultraje à inocência; envolto por um véu de falsidade capaz de ocultar a verdade debaixo do meu nariz. A saga começou prosaicamente: averiguar um evento bizarro na filial de uma franquia de atacados. A qualquer hora do dia ou da noite ecoava um grito aflito e repentino. Naturalmente inferiram ser troça de gaiatos, mas como explicar as ocorrências após o expediente, com o prédio trancado e vigiado? Instalaram câmeras de vigilância, dobraram o número de guardas, fizeram varreduras procurando aparatos eletrônicos e o mistério persistia. Principiara esporadicamente e assim se mantivera ao longo dos anos. Recentemente a frequência intensificara-se, ocorrendo várias vezes no mesmo turno. Tardaram a compreender o que dizia a voz. Parecia um nome. De tanto repetir, chegaram a um consenso. A voz clamava por "Marcos...

Ao contrário

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No final da década de 1980 eu era um jovem recém-egresso da faculdade tentando ganhar o pão com o suor do meu rosto. No currículo, estágios realizados durante a graduação e experiências fugazes no mercado de trabalho. Fiquei surpreso ao ser escolhido para concorrer no processo seletivo conduzido por um instituto de apoio a indústria do Rio Grande do Sul. Além das entrevistas de praxe, fazia parte do pacote de admissão um curso de formação de trinta dias a ser ministrado em Brasília.  Nem pestanejei. Assinei o contrato pensando na viagem. Nunca saíra dos pagos, então considerei ser uma formidável oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Sequer supus que esta aventura revelaria uma faceta oculta de minha personalidade, a qual se desenvolveria completamente vários anos depois. Arrumei as malas e desembarquei lépido e fagueiro na Capital Federal. O contratante providenciara acomodações num hotel próximo a universidade responsável por organizar o curso. Fui alocado nu...

Benício e o falso medium

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Lembram do Benício, o ancestral maragato notabilizado pela perícia ao aplicar a Gravata Colorada nos legalistas? Pois bem, reencontrei-o. Ou melhor, ele voltou a me procurar durante uma viagem a Porto Alegre. Surgiu pilchado, lenço vermelho no pescoço, tirador de couro sobre o chiripá surrado, garruchas e adaga atravessadas na guaiaca. Continua o mesmo fanfarrão debochado de sempre. Eu voltara à cidade para cuidar do inventário de meu recém finado pai e ele sequer aparentou demonstrar interesse ou solidariedade. Foi logo pedindo favores. Dessa vez para um conhecido tão morto quanto ele. — Estás terceirizando minhas habilidades? - Indaguei magoado pela indiferença, ofendido pelo oportunismo. Respondeu com a cara lavada de costume: — Mas bah! Deixa de melindres! Comentei a respeito dos teus dons e ele pediu que intercedesse. Não me faça desfeita perante um colega! Indignava-me a desfaçatez do antepassado. Em contrapartida, alg...

Adalgisa

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Um dos meus pontos de referência afetiva no centro do Rio de Janeiro é o restaurante Verdinho da Cinelândia - de saudosa memória. Já citei o local em relato anterior assim como uma de suas ilustres figuras: Seu Roberval, o garçom que sempre nos atendia (ver Chorosa ). Uma turma de amigos autointitulada Confraria das Quartas reunia-se ali todas as quartas-feiras ao meio-dia com o propósito de comer, beber e, principalmente, jogar conversa fora. Tínhamos mesa fixa e direito a batas-fritas portuguesas no capricho. Bons tempos aqueles. Essa lembrança trouxe de arrasto outra, de um caso complicado, resolvido com fartas doses de sutileza, argúcia e uma pitada de sorte. Começou de forma prosaica durante o almoço, após alguém comentar sobre minhas habilidades paranormais. Notei que Seu Roberval suspendera o retorno à cozinha e ficara assuntando. Nada demais. Fazia isso frequentemente e não ligávamos, pois o considerávamos membro do grupo. Encerrado o repasto coube a mim qu...

Prematuro

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No final de março, após uma chuva benfazeja amenizar a secura de um verão interminável, saí para espairecer. A temperatura agradável suavizava meu permanente senso de urgência, fruto das inúmeras solicitações de ajuda, tanto de vivos quanto de mortos. Há uma praça bastante arborizada relativamente perto do local onde resido e para lá me dirigi. Considero um privilégio desfrutar desse oásis verde em meio a paisagem de asfalto e concreto. O trinar dos passarinhos, as corridas frenéticas dos cães, as risadas das crianças têm o poder de afastar de mim as sensações amargas herdadas dos eventos dolorosos que costumo tratar. Ao menos era o que eu esperava. Sentado num banco apartado do burburinho, sondava a esmo. A vinte metros divisei uma babá distraída, mexendo no celular. No carrinho a sua frente um garotinho ria e esticava os bracinhos. Não para ela. Absorta, ignorava a agitação do menino. Os gracejos eram para uma jovem que o contemplava com afeto e desampa...

Merica

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As luzes do amanhecer banhavam Angelo em pé no convés do vapor Vittoria. Estava ali porque carecia do alento oferecido pela brisa fresca da manhã. O ambiente opressivo do alojamento coletivo tornara-se insuportável após tantas noites acumulando o cheiro de centenas de suores dormidos. Essas pausas amenizavam as náuseas que o acometiam. A repulsa era tamanha que nem o infindável balanço infligido pelas ondas o perturbava. Desistira de procurar equilíbrio por ser desnecessário. A massa humana compactada impedia a queda por falta de espaço. Viajava ombro a ombro com a multidão de emigrantes italianos que fugiam da miséria. A ociosidade forçada dava-lhe tempo para refletir a respeito  das consequências advindas da troca do Vêneto pelo desconhecido. Recriminava-se por ter lançado à sorte esposa e quatro filhos, todos sufocando no porão apinhado de gente. Não fora isso que planejara. Não fora isso que prometeram.  Há exatos vinte dias embalaram seus parcos pertences e...