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A ponteira - especial de Natal

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O primeiro domingo do Advento sempre tivera um significado especial para Roberto. Não por ser entusiasticamente religioso, mas por ser o dia de montar a Árvore de Natal. Desenvolvera o hábito colaborando, desde pequeno, com o empenho da família em ornamentar a moradia para as celebrações de final de ano. Perpetuava a tradição transmitida por sua mãe, já falecida, a quem reverenciava renovando, inovando e aprimorando a decoração. Devotava tamanha ênfase a essa perspectiva da liturgia que renegou o aspecto sagrado da data magna da cristandade. Vaidoso, recusava-se a reprisar o enredo anterior. Substituía tudo: bolas, festões, luzinhas, enfeites, esforçando-se para surpreender — e superar — amigos, conhecidos e parentes. Contudo, havia um item insubstituível: a ponteira! Sua aparência modesta destoava da exuberância reinante, porém carregava um peso simbólico inestimável. Fora trazida da Europa pelos antepassados maternos. Relíquia remanescente da pátria deixada para trás. Resisti...

A Manjedoura Vazia

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Alguns acreditam que a época do Natal propicia a ocorrência de fatos inexplicáveis, inusitados ou maravilhosos destinados a abençoar os mortais sem causa ou razão aparente. Não era o caso daquele moço acabrunhado, descendo, hesitante, os degraus do ônibus que o devolvera a cidade onde crescera. Retornava após longa ausência. Fracassos sucessivos o converteram em cético no que diz respeito à existência da felicidade. Mal sabia ele que viveria uma experiência capaz de modificá-lo definitivamente. Voltara devido ao falecimento do pai, de quem fora próximo. Divergiram irremediavelmente no momento em que decidira dar um rumo diferente ao seu futuro. Saiu de casa brigado, afastou-se, achando ter rompido amarras que o sufocavam. A dor da perda o revoltara sobremaneira porque a distância o impedira de estar presente no funeral. Com esta viagem pretendia, a seu modo, prestar um derradeiro tributo. Abandonou a vida insatisfatória que levava na esperança de resgatar sentimentos marcantes da infân...

Cuidado com o cachorro

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Era dezembro. O verão aqui no Rio de Janeiro costuma ser quente, mas naquele ano o calor estava literalmente insuportável. A história que vou contar começou no primeiro domingo do Advento. Eu deixara o conforto do ar condicionado para ir à padaria da esquina comprar sorvete. Ao passar pelo muro de uma casa abandonada, notei o portão aberto e parei para dar uma espiada. Era uma antiga e maltratada residência. A despeito das marcas deixadas pelo tempo, guardava muito do esplendor original. Sem dúvida uma sobrevivente do período áureo da Tijuca, quando o bairro era povoado em sua maioria por veranistas que buscavam o clima ameno da região. Não ousei entrar, mas divisava o jardim convertido em mato alto, muito lixo espalhado e um cachorro vira-latas caramelo sentado em frente a escada que leva ao alpendre. A cena em si não diferia do esperado, entretanto a postura do animal chamou-me a atenção. Imóvel, fitava o vazio a sua frente, indiferente a tudo. Arfava com meio palmo de língua de fora...

Espírito de Natal

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Se não me falha a memória, faz uns quatro anos que passamos o último Natal sem incidentes. O fenômeno teve início em 2018, creio que na segunda semana de dezembro. A partir daí passou a acontecer sempre na mesma época. Começou fraco, na hora eu não reparei, ou não quis acreditar que fosse real, o que é o mais provável. Estava sentado na poltrona da sala, bebericando cerveja enquanto respondia mensagens no celular. Uma sensação desagradável tomou conta do meu peito. Sem razão aparente, olhei para a janela. Era noite, quase não se via o lado de fora. Por um instante vi o brilho fugaz de dois luzeiros. Julguei ser um gato e voltei a zapear o aparelho. Fiquei cismado com a distância entre os pontos luminosos. Lembro de pensar que devia ser um bicho enorme e que não haviam gatos daquele tamanho na vizinhança. Não era um animal, hoje sei disso. Demorou para que eu aceitasse essa simples verdade. No ano seguinte aconteceu de novo. Vi claramente um par de olhos que me vigiava da rua. Dessa vez...