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Marco

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Os últimos meses não foram fáceis. Precisei enfrentar um incidente tenebroso, com desdobramentos terríveis, entremeado de crueldade e ultraje à inocência; envolto por um véu de falsidade capaz de ocultar a verdade debaixo do meu nariz. A saga começou prosaicamente: averiguar um evento bizarro na filial de uma franquia de atacados. A qualquer hora do dia ou da noite ecoava um grito aflito e repentino. Naturalmente inferiram ser troça de gaiatos, mas como explicar as ocorrências após o expediente, com o prédio trancado e vigiado? Instalaram câmeras de vigilância, dobraram o número de guardas, fizeram varreduras procurando aparatos eletrônicos e o mistério persistia. Principiara esporadicamente e assim se mantivera ao longo dos anos. Recentemente a frequência intensificara-se, ocorrendo várias vezes no mesmo turno. Tardaram a compreender o que dizia a voz. Parecia um nome. De tanto repetir, chegaram a um consenso. A voz clamava por "Marcos...

Caixa de Bombom

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Abril de 1964 O golpe militar depusera João Goulart e a incerteza assombrava o País. Em meio ao turbulento cenário político, por determinação do Estado Maior das Forças Armadas, as tropas estavam aquarteladas, prontas para agir caso fosse necessário. O Cruzeiro do Sul luzia sobre o pampa gaúcho. Antenor contava estrelas e bafejava as mãos para aquecê-las. O turno recém começara e ele distraia o tédio estudando o pavilhão celeste. As ordens do Oficial de Dia eram severas: — Ninguém entra, ninguém sai! Coubera a ele vigiar o ponto mais afastado do quartel, um pedaço de campo alagadiço utilizado para prática de tiro ao alvo. Rumores de passos o alertaram da aproximação de alguém. O estalar de um graveto confirmou isso. Respirou fundo, buscou coragem na coronha do mauser e lascou: — Alto lá! Diga a senha ou mando bala! Uma voz enérgica emergiu do breu: — Segura o fuzil direito recruta. Desse jeito vais atirar no teu pé. Ao identificar o chegante, perfilou-se. Suspirou a...

Jane Loira e o caso do círculo de biguás

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Obras de ficção tendem a romantizar algumas profissões, em especial a de repórter investigativo. Livros, quadrinhos e cinema alucinam os fãs do gênero de ação com histórias ricas em perigo e aventuras, como se esses profissionais fossem indestrutíveis e imunes a falhas de julgamento. Jane Loira, assim chamada para diferenciá-la da xará morena, colega de redação, decidiu alijar estes pensamentos intrusivos motivados pelo rancor e pelo tédio. Arrancou um talo de capim para mordiscar. Precisava concentrar-se no trabalho: vigiar bandos cada vez maiores de biguás voando em círculos concêntricos, recortados contra o azul do Céu. Nelson postou-se a seu lado, firmou as pernas e apontou a câmera fotográfica para o alto. Jane debochou: — Vais fotografar os biguás com essa velharia? O dublê de motorista, ajudante e fiel escudeiro retrucou galhofeiro: — Respeite a mãe de todas as câmeras. Essa belezinha usa filme 6x9 e está equipada com tele de 500mm. Cala...

Ao contrário

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No final da década de 1980 eu era um jovem recém-egresso da faculdade tentando ganhar o pão com o suor do meu rosto. No currículo, estágios realizados durante a graduação e experiências fugazes no mercado de trabalho. Fiquei surpreso ao ser escolhido para concorrer no processo seletivo conduzido por um instituto de apoio a indústria do Rio Grande do Sul. Além das entrevistas de praxe, fazia parte do pacote de admissão um curso de formação de trinta dias a ser ministrado em Brasília.  Nem pestanejei. Assinei o contrato pensando na viagem. Nunca saíra dos pagos, então considerei ser uma formidável oportunidade de crescimento pessoal e profissional. Sequer supus que esta aventura revelaria uma faceta oculta de minha personalidade, a qual se desenvolveria completamente vários anos depois. Arrumei as malas e desembarquei lépido e fagueiro na Capital Federal. O contratante providenciara acomodações num hotel próximo a universidade responsável por organizar o curso. Fui alocado nu...

A ponteira - especial de Natal

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O primeiro domingo do Advento sempre tivera um significado especial para Roberto. Não por ser entusiasticamente religioso, mas por ser o dia de montar a Árvore de Natal. Desenvolvera o hábito colaborando, desde pequeno, com o empenho da família em ornamentar a moradia para as celebrações de final de ano. Perpetuava a tradição transmitida por sua mãe, já falecida, a quem reverenciava renovando, inovando e aprimorando a decoração. Devotava tamanha ênfase a essa perspectiva da liturgia que renegou o aspecto sagrado da data magna da cristandade. Vaidoso, recusava-se a reprisar o enredo anterior. Substituía tudo: bolas, festões, luzinhas, enfeites, esforçando-se para surpreender — e superar — amigos, conhecidos e parentes. Contudo, havia um item insubstituível: a ponteira! Sua aparência modesta destoava da exuberância reinante, porém carregava um peso simbólico inestimável. Fora trazida da Europa pelos antepassados maternos. Relíquia remanescente da pátria deixada para trás. Resisti...