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A última gota

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Quincas tinha 71 anos de idade quando percebeu estar sendo seguido. O delírio persecutório começou imperceptível, como uma impressão sutil. Porém, a incômoda sensação de nunca estar sozinho evoluiu lenta e tenazmente. Em setembro de 1974, ao completar 72 primaveras, a impressão materializou-se na forma vagamente sensual de uma jovem usando um surrado vestido de algodão; longo o bastante para ser decente, justo na medida para realçar as coxas roliças por ele cobertas. Na cabeça, equilibrava com facilidade uma lata de querosene de vinte litros convertida em balde. As pernas rijas e bem torneadas indicavam a prática rotineira daquele exercício involuntário. Instintivamente pressentia conhecê-la. Esforçava-se por lembrar de onde, inutilmente. O inexplicável fenômeno apavorou-o no início. Entretanto, a moça era inofensiva. Limitava-se a segui-lo fielmente aonde quer que fosse. E detalhe importante: invisível aos demais. Vê-la era privilégio exclusivo de Quincas. Aflito com a constrangedora ...

Pedaço de mim

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O Natal de 2023 foi abençoado de diversas formas (leia o conto  Cuidado Com o Cachorro  e descubra porquê). Nessa ocasião recebi parentes vindos do Rio Grande do Sul, inclusive mamãe, de quem herdei a capacidade de comunicar-me com os habitantes do pós-vida. Ela é profundamente religiosa e adora explorar lugares, vivenciar os costumes nativos, descobrir e experimentar o inesperado. Com isso em mente montei um roteiro turístico pouco convencional, incluindo atividades pitorescas e, óbvio, santuários antigos. Ao visitarmos (eu, ela e minha irmã) o sítio arqueológico da Igreja da Ordem Terceiro do Carmo, no Centro Histórico do Rio, fomos surpreendidos por uma atração singular, acessível para pouquíssimos afortunados. Mamãe atravessava o passadiço sobre a escavação, admirando os vestígios de alicerces emergindo do chão. De repente estacou e nos chamou pedindo silêncio. Agarrou-me pela camiseta e sussurrou ter visto uma coisa rastejando perto das pedras. Argumentei tratar-se de rat...

Marco

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Os últimos meses não foram fáceis. Precisei enfrentar um incidente tenebroso, com desdobramentos terríveis, entremeado de crueldade e ultraje à inocência; envolto por um véu de falsidade capaz de ocultar a verdade debaixo do meu nariz. A saga começou prosaicamente: averiguar um evento bizarro na filial de uma franquia de atacados. A qualquer hora do dia ou da noite ecoava um grito aflito e repentino. Naturalmente inferiram ser troça de gaiatos, mas como explicar as ocorrências após o expediente, com o prédio trancado e vigiado? Instalaram câmeras de vigilância, dobraram o número de guardas, fizeram varreduras procurando aparatos eletrônicos e o mistério persistia. Principiara esporadicamente e assim se mantivera ao longo dos anos. Recentemente a frequência intensificara-se, ocorrendo várias vezes no mesmo turno. Tardaram a compreender o que dizia a voz. Parecia um nome. De tanto repetir, chegaram a um consenso. A voz clamava por "Marcos...

Caixa de Bombom

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Abril de 1964 O golpe militar depusera João Goulart e a incerteza assombrava o País. Em meio ao turbulento cenário político, por determinação do Estado Maior das Forças Armadas, as tropas estavam aquarteladas, prontas para agir caso fosse necessário. O Cruzeiro do Sul luzia sobre o pampa gaúcho. Antenor contava estrelas e bafejava as mãos para aquecê-las. O turno recém começara e ele distraia o tédio estudando o pavilhão celeste. As ordens do Oficial de Dia eram severas: — Ninguém entra, ninguém sai! Coubera a ele vigiar o ponto mais afastado do quartel, um pedaço de campo alagadiço utilizado para prática de tiro ao alvo. Rumores de passos o alertaram da aproximação de alguém. O estalar de um graveto confirmou isso. Respirou fundo, buscou coragem na coronha do mauser e lascou: — Alto lá! Diga a senha ou mando bala! Uma voz enérgica emergiu do breu: — Segura o fuzil direito recruta. Desse jeito vais atirar no teu pé. Ao identificar o chegante, perfilou-se. Suspirou a...

Jane Loira e o caso do círculo de biguás

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Obras de ficção tendem a romantizar algumas profissões, em especial a de repórter investigativo. Livros, quadrinhos e cinema alucinam os fãs do gênero de ação com histórias ricas em perigo e aventuras, como se esses profissionais fossem indestrutíveis e imunes a falhas de julgamento. Jane Loira, assim chamada para diferenciá-la da xará morena, colega de redação, decidiu alijar estes pensamentos intrusivos motivados pelo rancor e pelo tédio. Arrancou um talo de capim para mordiscar. Precisava concentrar-se no trabalho: vigiar bandos cada vez maiores de biguás voando em círculos concêntricos, recortados contra o azul do Céu. Nelson postou-se a seu lado, firmou as pernas e apontou a câmera fotográfica para o alto. Jane debochou: — Vais fotografar os biguás com essa velharia? O dublê de motorista, ajudante e fiel escudeiro retrucou galhofeiro: — Respeite a mãe de todas as câmeras. Essa belezinha usa filme 6x9 e está equipada com tele de 500mm. Cala...