Caixa de Bombom


Abril de 1964

O golpe militar depusera João Goulart e a incerteza assombrava o País. Em meio ao turbulento cenário político, por determinação do Estado Maior das Forças Armadas, as tropas estavam aquarteladas, prontas para agir caso fosse necessário.

O Cruzeiro do Sul luzia sobre o pampa gaúcho. Antenor contava estrelas e bafejava as mãos para aquecê-las. O turno recém começara e ele distraia o tédio estudando o pavilhão celeste. As ordens do Oficial de Dia eram severas:

— Ninguém entra, ninguém sai!

Coubera a ele vigiar o ponto mais afastado do quartel, um pedaço de campo alagadiço utilizado para prática de tiro ao alvo. Rumores de passos o alertaram da aproximação de alguém. O estalar de um graveto confirmou isso. Respirou fundo, buscou coragem na coronha do mauser e lascou:

— Alto lá! Diga a senha ou mando bala!

Uma voz enérgica emergiu do breu:

— Segura o fuzil direito recruta. Desse jeito vais atirar no teu pé.

Ao identificar o chegante, perfilou-se. Suspirou aliviado.

— Sargento, ainda bem que é o senhor. Mande lembranças pra D. Virgínia.

Prates, o sargento, retribuiu a continência prestada pelo sentinela e apressou-se a destrancar o portão de serviço ao lado da guarita. Urgia ser rápido, apesar da escuridão impedi-lo de enxergar claramente o caminho que conduzia à vila militar. Não levava lanterna. A luz denunciaria sua posição. Se o comandante descobrisse a escapadela, enfrentaria corte marcial, com certeza. Arriscava-se infringindo determinação superior por um motivo justo: a esposa entrara no oitavo mês de gestação. Além disso, tinham a pequena Lúcia, de três aninhos. Precisava certificar-se que não corriam perigo.

Passava da meia-noite. O barulho da chave no portão alertou Antenor. Espreitou tenso e atento o ranger das dobradiças enferrujadas. Relaxou ao escutar um sonoro:

— Sou eu!

Prates retornara pelo mesmo caminho. Trazia alguma coisa embrulhada num guardanapo. O sentinela não desgrudava os olhos da trouxinha. Entregou-a a Antenor.

— Muito obrigado, sargento. 

Desdobrou o pano bordado e cravou os dentes no sanduíche de mortadela, queijo e pão caseiro. Prates admirava divertido o deleite do subalterno com tão simples iguaria. Antenor devorou a merenda avidamente. De boca cheia, sugeriu cuspindo farelos:

— Meu turno acaba em cinco minutos. É melhor o senhor ir antes que a ronda passe aqui.

Abril de 1984

A multidão lotou a Praça Montevideo, subiu a Borges de Medeiros e se espraiou pelo Largo Glênio Peres. Acuado pelo avanço popular, o Regime Militar acenava com uma abertura lenta, segura e gradual. Os porto-alegrenses uniam-se ao desejo nacional de agilizar o processo apregoando sua insatisfação gritando a palavra de ordem do dia: Diretas Já! Anita, caloura do curso de Economia da UFRGS, participava animada de sua primeira passeata contra a ditadura. Aguardava ansiosa os discursos de Ulysses Guimarães, Brizola e outros ícones da luta por eleições livres para Presidente da República.

— Esse palanque tá mal posicionado. — observou um colega da Arquitetura.

— Provavelmente não previram tanta gente. — respondeu um futuro jornalista.

Anita ia complementar o argumento. Calou-a o súbito arrocho de uma mão forte no ombro esquerdo. Olhou assustada. O susto converteu-se em ódio. Deu um safanão para libertar-se.

— Pai, me larga!

Apreensivo com a demora da filha em voltar da faculdade, Prates rumara direto para o centro de Porto Alegre.

— Só pode estar com aqueles subversivos — dissera à esposa ao sair.

Perambulara por um bom tempo em meio aos manifestantes buscando por ela. Agora não desistiria facilmente.

— Filha minha não anda com vagabundo! — dirigia-se à Anita e, por conseguinte, a todos que a rodeavam.

Dois ou três rapazes interpuseram-se entre eles:

— Vaza, coroa. Vai procurar tua turma.

— Ele é milico — denunciou Anita.

— Subtenente do glorioso Exército Brasileiro — defendeu-se Prates.

— Cai fora, velhote!

— Sai daqui, pai!

Vaias e imprecações impublicáveis colocaram Prates em desvantagem. As circunstâncias recomendavam retirada estratégica. Revidaria quando estivesse em terreno favorável.

— Na minha casa mando eu, Anita! Não perdes por esperar!

Retraiu contrariado. Um recuo tático por estar em minoria. Somente um louco afrontaria o grupo que cercava sua filha. Recuou amargurado, tentando entender onde fora parar aquela garotinha que desfilava cantando "Marcha Soldado".

— Cabeça de papel tenho eu! — esbravejou.

Socou o volante do carro.

— Maldito frei comunista!

O desabafo referia-se ao professor de catecismo. Aos nove anos, inscreveram-na na secretaria da paróquia ignorando que as aulas seriam ministradas por um franciscano adepto da Teologia da Libertação.

— Essa merda começou com ele! — outro soco no volante.

As peças se encaixavam. Tudo fazia sentido: os "retiros espirituais", as amizades erradas, as matérias perniciosas na imprensa.

— Fizeram a cabeça da menina!

Chorou de raiva e impotência. O afã em progredir na carreira o obrigara a delegar a educação das filhas à esposa. Não entendia por que Lúcia era tão doce e Anita tão revoltada. A primogênita nunca dera trabalho, ao contrário da caçula.

Virgínia desligou o televisor ao ouvir o carro entrando na garagem. Assistia ao noticiário preocupada com a segurança de Anita. Temia uma ação repressiva, um tumulto, o acirramento dos conturbados ânimos familiares.

Prates entrou calado. Jogou-se no sofá. Esperou em vão. Anita não voltou. Aliás, voltou, mas só depois que a mãe avisou-a que o pai havia saído. Veio pegar roupas, pertences e despedir-se. Não suportava viver naquele ambiente opressivo. Lúcia tentou dissuadi-la:

— Espera passar meu casamento. Quero te ver no altar, como madrinha.

— Não sei como vocês aguentam. — tomou um taxi e partiu sem olhar para trás.

Abril de 2004

O Sol atravessou o vidro martelado da janela da cozinha. Anita, estremunhada, arrastou os pés até o fogão para preparar o café da manhã. Sentia-se exausta. Dormira pouco e mal. Pesadelos sinistros misturados a reminiscências da infância espantaram o sono. Ofuscada pela intensa luminosidade, protegeu os olhos com as costas da mão e puxou a cortina. Ligou o rádio. O locutor descrevia os efeitos do Furacão Catarina. Um ou dois comentaristas enumeravam as ações a serem tomadas para prevenir tragédias como essa. Tratou de apressar-se. Clientes a aguardavam no banco onde trabalhava como gerente de contas.

Desceu célere a escadaria do prédio de três andares, sem elevador. Percorreu a João Manoel e enveredou pela Rua dos Andradas em direção à Praça da Alfândega. A região concentra várias unidades do Exército, razão pela qual é comum deparar-se com militares fardados circulando nas imediações. Entretanto, uma silhueta familiar destacou-se, mesmo ao longe. Devido à distância não distinguiu a face do sujeito. O episódio reacendeu sensações ruins, resquícios das angústias noturnas. Apertou o passo querendo evitar contato visual. Volta e meia topava com ex-colegas do pai ávidos por recordar o, para ela, doloroso passado. 

Lá pelas onze horas o telefone tocou. Ligação externa. Sua mãe chorava na outra ponta da linha. Não compreendia as palavras balbuciadas entre soluços. Pressagiava o significado. O pai morrera.

— Quando aconteceu?

— De madrugada. Estou no hospital. Vem pra cá, por favor...

Lúcia morava em Campo Grande. Casara-se com um oficial da Intendência e cruzava o Brasil acompanhando os deslocamentos do esposo. Virgínia não tinha a quem apelar; sobrava Anita. Quanto a ela, contava consigo mesma. Permanecera solteira porque recusava-se a respaldar uma instituição destinada a transferir a posse da mulher do pai para o marido.

Comunicou o fato ao supervisor e chispou para a Santa Casa de Misericórdia.

A aparência macilenta do cadáver destoava da figura intimidante armazenada na memória. Cortara o vínculo com a família por causa dele e, ironicamente, tocara a ela identificá-lo para dar continuidade à burocracia do sepultamento.

Prates mantivera contato com diversos parceiros de caserna ao longo dos anos. A notícia do falecimento espalhou-se e dezenas de veteranos apresentaram-se para prestar a derradeira homenagem ao camarada de armas. Inclusive o, agora, sargento Antenor.

O velório transcorreu normalmente. Ao fecharem a tampa da urna, Anita despediu-se com um muxoxo. Seguiu o féretro amparando a mãe, abalada pela perda do companheiro de uma vida inteira. Cumprido o ritual, levou-a para casa. Decidiu pernoitar lá para não abandoná-la desamparada num momento de tamanha vulnerabilidade. Instalou um colchonete no antigo quarto, convertido em depósito das miniaturas colecionadas pelo pai, e esquentou sobras esquecidas na geladeira para o jantar. Comeram em silêncio, revendo, de perspectivas antagônicas, recordações deixadas por Prates.

Antes de se recolher, Anita fez um chá de camomila, serviu duas xícaras e retornou à sala. A mãe olhava um show de variedades com o volume zerado. Virgínia agradeceu, depositou o pires na mesinha de centro e mexeu distraída a colherzinha. Compenetrada no movimento hipnótico do redemoinho produzido, falou sem altear o tom:

— Podias ter ligado. Ele teria te perdoado.

Anita sabia que cedo ou tarde a cobrança chegaria. Queria dizer o quanto desprezava o perdão paterno, contudo a situação pedia serenidade.

— Talvez, mãe. Não há como saber.

Bebericaram caladas. Incomodada, Anita mudou o rumo da prosa:

— Quem era o milico de uniforme no enterro?

— Qual? — perguntou a mãe, assoando o nariz.

— Aquele na rabeira do cortejo. Ele não participou do velório.

— Não sei, querida...

Sem condições emocionais de falar sobre qualquer assunto, Virgínia levantou-se, beijou a testa de Anita e fechou a porta do quarto atrás de si.

Naquela noite, Anita dormiu feito um bebê.

Na manhã seguinte despertou ao alvorecer, preparou o café e chamou Virgínia. Concluído o desjejum, separaram documentos para os trâmites legais.

Saiu com a pasta recheada debaixo do braço. A agradável tepidez do outono amenizava a ansiedade aguçada pelo dever de encaminhar a papelada relativa ao óbito do pai. A parada distava duas quadras e ela andava tranquila. Uns dez gatos pingados esperavam o coletivo que os conduziria ao centro da cidade. Uma fulana de tailleur rosa protegia o rosto com a bolsa. Um rapazote com pinta de estudante, alguns operários e ... PQP! O homem fardado do dia anterior mirava a condução que despontara no final da rua. Correu. Chegou justamente quando o ônibus parou e abriu as portas. Ele embarcou primeiro, seguido pelos demais. Anita galgou os degraus espichando o pescoço. O soldado sumira. As portas se fecharam e o motorista seguiu viagem. Espiou para fora. Viu-o parado na calçada, acenando em despedida. Um detalhe atraiu sua atenção: contrariando o código de vestimenta do Exército, portava o quepe levemente inclinado.

Pagou a passagem e sentou-se ensimesmada. Remoía as últimas horas encafifada com a misteriosa aparição verde-oliva. O indivíduo não lhe era estranho, apenas não atinava quem pudesse ser. Imersa nesses pensamentos desembarcou no Terminal da Praça Parobé. Dirigiu-se à repartição e estacou no saguão. Não fazia ideia do que deveria fazer.

— Oi, por acaso és filha do Prates?

Pega de surpresa, Anita arrepiou-se toda ao sentir o toque dos dedos ossudos da senhorinha que a interpelava.

— Sou sim. Como a senhora soube?

— Cara de um, focinho do outro. — riu-se — Conheço teu pai desde sempre. Meus pêsames. Uma perda lamentável.

Anita vislumbrou sinceridade nos olhos opacos pela catarata, irrequietos por detrás das grossas lentes embaçadas. A armação de aro de tartaruga lhe conferia um ar de especialista. 

— A senhora trabalha aqui?

— Trabalhei por anos a fio. Será que posso te ajudar?

Anita relatou o motivo de sua presença e o desconhecimento dos procedimentos a serem adotados. Solícita, Leocádia, a senhorinha, explicou didaticamente como proceder, com quem falar, quais departamentos visitar. Por fim, fez uma pergunta inesperada:

— Casaste?

— Pra que essa velhota enxerida quer saber isso? — pensou Anita, ciosa de sua privacidade.

Deixou transparecer o desconforto, pois ela emendou:

— Filhas solteiras de militares tem direito a pensão vitalícia. Se não te casastes, podes requerer essa também.

Anita peregrinou de guichê em guichê até completar sua missão. Leocádia foi inestimável. Se o caldo engrossava, ela fornecia a dica preciosa e tudo se resolvia.

Nos finais de semana visitava a mãe. Estreitavam laços almoçando juntas, colocando fofocas em dia, discutindo amenidades. Anita aproveitava para atualizá-la a respeito do andamento do processo de concessão dos benefícios.

Numa quarta-feira cinzenta Virgínia atendeu o telefone antevendo boas novas. Era a filha, eufórica, anunciando o deferimento dos pedidos. As duas tornaram-se pensionistas do Estado. Agendaram comemorar no próximo domingo.

Anita encontrou-a folheando um velho álbum de fotografias. A cena a desagradou. Achava que a mãe devia seguir em frente, encarando a morte do marido como livramento do jugo matrimonial. No íntimo, acreditava que a mãe ficaria melhor sendo dona do próprio nariz.

Os olhos semicerrados de Virgínia marejaram. O corpo estremeceu. A dor do luto revelou-se sem máscaras. Anita intuiu o sofrimento e abraçou a mãe, acolhendo-a incondicionalmente. Quatro décadas de ressentimento escorreram, levadas pelas lágrimas descendo as bochechas das duas. Aceitou relegar as mágoas ao passado, pois cabia a ela enfrentar o presente na forma oferecida pela vida.

Virgínia se recompôs, secou o rosto e sorriu. Nostálgica, confidenciou:

— Teu pai era um galã. Ficava lindo de farda. — e virou o álbum para mostrar um retrato de página inteira.

Prates, egresso da Escola de Sargentos, reluzia no uniforme de passeio. A túnica impecável, a gravata simetricamente ajustada, o quepe ligeiramente inclinado. Anita quase engoliu a língua ao reconhecer na foto o personagem que a assombrara em mais de uma ocasião.

A mãe, perdida em devaneios, não percebeu a perturbação da filha. Fechou o álbum e o abraçou com força contra o peito.

Após o almoço festivo, enquanto Virgínia tirava os pratos Anita perguntava-se qual seria a sobremesa. Descobriu uma caixa de bombons em cima do aparador. Fez menção de levantar-se para pegá-la, imediatamente contida pela mãe que vinha da cozinha carregando uma bandeja com pudim e o bule de porcelana reservado às visitas:

— Tira o olho grande dos bombons. — deu uma risadinha marota — São para a Leocádia. Ela merece um agrado pela ajuda.

Considerando que havia pudim na jogada, Anita concordou com a mãe. Combinaram que ela levaria a caixa na segunda-feira. O banco situava-se perto da repartição, permitindo fazer a entrega durante o intervalo.

Anita esperou uns quinze minutos no saguão e nada de Leocádia. Precisava retornar à agência. Avistou um praça que a atendera anteriormente e foi ter com ele:

— Lembra de mim? Sou a filha do Prates. Requeri pensão há algum tempo.

— Lembro sim, D. Anita. Em que posso ajudá-la?

— Procuro a Leocádia.

O moço não entendeu.

— Ela trabalha aqui?

Anita descreveu Leocádia com tal convicção que vários funcionários a rodearam curiosos. Um sargento das antigas aproximou-se intrigado.

— Conheci a Leocádia. Éramos amigos.

— Que ótimo. Sabe dizer onde encontrá-la?

— Deve estar no jazigo da família, no São Miguel e Almas. Ela morreu ano retrasado.

A informação despejada de supetão desnorteou Anita. Correu desvairadamente, sem dizer adeus nem obrigado. Disparou pela Rua dos Andradas. Parou na altura do Hotel Majestic para retomar o fôlego. Deu-se conta que perdera a caixa de bombons. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A última refeição

O milagre das águas

Oficleide