A última refeição
A Tijuca é um tradicional bairro do Rio de Janeiro. Sua origem
remonta ao século XVI, quando os jesuítas instalaram os primeiros
engenhos de processamento de cana-de-açúcar. No século XX, após uma fase de crescente
urbanização, consolidou-se como reduto de abastados, muitos dos quais
aproveitavam o clima ameno para refugiar-se do ardente verão carioca.
A modernidade desfigurou a vocação bucólica original, porém não conseguiu
extirpá-la completamente. Deixando as avenidas principais e percorrendo as alamedas encontram-se recantos onde o tempo escorre lentamente e pode-se
abstrair das tribulações diárias.
Por exemplo, há uma travessa recôndita, densamente arborizada, pavimentada com
pedras irregulares, cujo nome se esconde nas brumas da memória. Guarda em seu
seio um antiquado restaurante, deslocado do bulício constante da civilização. A
fachada, modernizada há décadas, dá sinais inequívocos de anacronismo.
Destaca-se na paisagem por suas janelas enormes, adornadas com arabescos
encimados por figuras mitológicas. Funcionam como vitrines. Para quem está de
fora exibem móveis e objetos decorativos de diversos períodos
arquitetônicos. Do ponto de vista dos fregueses, oferecem um amplo panorama do mundo
exterior.
Antigos moradores do entorno referem-se a ele em suas conversas de pé de ouvido. Todos o
conhecem, ninguém o frequenta. O motivo?
— É assombrado — dizem.
— Fulano almoçou lá e nunca mais foi visto — cochicham.
— Beltrano entrou para uma cerveja e sumiu — sussurram.
— Sicrano fez ali sua derradeira refeição — confidenciam.
E apressam o passinho miúdo ao atravessar a rua para evitar a calçada do
estabelecimento maledetto.
Indiferente a essa crendice generalizada, um pedestre desgarrado deteve-se em
frente a sua porta. Revisou a lousa com os especiais do dia escritos a giz e
espiou, curioso. Não
era novo, o pedestre, nem tão idoso. Por não ser tijucano, jamais escutara as histórias
assombrosas. Residia na Zona Sul há anos, desde que se mudara para o Rio para ocupar um posto executivo numa empresa
multinacional.
Era cedo. O salão estava vazio. O ambiente vintage e a quietude reacenderam sensações adormecidas, mesclando paradas restauradoras em longas viagens com cenas cotidianas de convívio fraterno. Sentia-se íntimo do lugar.
Escolheu calmamente a melhor mesa, aquela
com visão privilegiada da rua. Sentou-se e largou a maleta
com documentos do escritório na cadeira ao lado. Estremeceu da cabeça aos pés. Aposentara-se no início da
pandemia, temendo contrair COVID no transporte público ou no
trabalho. A partir de então a esquecera no fundo de um armário. Nervoso, tamborilou na toalha quadriculada de azul e branco tentando lembrar
porque a tirara do ostracismo. O garçom trouxe um chope:
— Cortesia da casa.
Animado pela gentileza, relevou o lapso e respondeu:
— Obrigado. Assim fico freguês!
Bebericou distraído, brincando com a bolacha de descansar copo. Parou um
instante, apreciando a estampa preta e branca do logotipo do
restaurante. Achou chique. Normalmente os bares frequentados por ele
utilizavam as fornecidas pelas companhias cervejeiras.
Da bolacha seus olhos saltaram para as paredes azulejadas. Um friso ornado com
frutas e flores em alto-relevo despertou um cortejo de recordações: cafés da manhã na
cozinha antes de ir para a escola, almoço de domingo na mesa da sala com todos reunidos, chocolate quente nas tardes geladas de inverno, a filha do vizinho, um beijo roubado no escurinho do cinema. Nessa época tudo parecia simples.
— Em que momento a inocência da infância se transformou neste redemoinho de desilusões? — indagou ao léu, pois o garçom sumira.
Reparou no piso recoberto com ladrilhos
hidráulicos. Tinha irretocadas marcas de milhares de passos, principalmente na
entrada. A porta ao centro. As janelas, duas de cada lado. O movimento
aumentara. A multidão desfilava alheia a sua curiosidade. Demorou a perceber a estranheza dos passantes. Enfim deu-se conta que aqueles que cruzavam as janelas da esquerda vinham sozinhos. Os que passavam pelas da direita seguiam em duplas. E
outra coisa. A porta era um limiar. Os solitários desfilavam até ela e sumiam.
A cena o intrigou também pelas atitudes. A maioria caminhava pausadamente, curvada por fardos imaginários. Outros vinham confusos, outros apavorados. Alguns evidenciavam surpresa, bradando contra supostos erros de julgamento. Observou, intrigado, o ressurgir de cada solitário acompanhado de sua parelha. Raros iam sorrindo, a maioria calados. Olhavam a vidraça como se buscassem a si mesmos. Alvoroçou-se ao ouvir o choro de um garoto indo de arrasto.
— Aquela senhora deseja lhe falar.
O coração quase saiu pela boca. Por estar sentado de costas para o balcão, absorto pela choradeira do menino, não notara a aproximação do garçom. Refeito do susto prescrutou ao redor. Não havia viva alma no recinto.
— Qual senhora?
— A que está na soleira.
Ele estivera olhando para aquele ponto e podia jurar que pessoa alguma surgira ali até um segundo atrás. Agora uma silhueta feminina
recortava-se no contraste da luz forte vinda da rua. Atendendo a um aceno do garçom
ela avançou alguns passos.
— Mamãe!? — gritou incrédulo.
Reconheceu-a imediatamente, embora não fosse a velhinha decrépita de quem
cuidara em seu leito de morte. Esta versão era jovem, na faixa dos vinte e poucos
anos. Trajava o conjunto feito por ela mesma para a formatura da turma de
corte e costura de 1958. Julgou ser uma lembrança, ou um delírio. A
identificara graças ao retrato exposto sobre o piano
da sala no transcurso de sua meninice.
Ela ignorou solenemente o espanto do filho, sentou, acomodou a bolsinha no colo e
envolveu as mãos dele nas suas.
Lá fora o vaivém não parava.
— Estou aqui por tua causa.
Havia ternura em sua voz e um tom de ressentimento.
— Como isso é possível?
Ela sorriu e este sorriso causou-lhe arrepios. Chamou inutilmente o garçom. Necessitava desesperadamente escapulir da situação que se avizinhava.
— Mãe, me perdoa ...
— Precisava ter me matado?
— A senhora sofria de Alzheimer. Só antecipei o inevitável.
O semblante dela permanecia sereno.
— Compensou me sufocar com o travesseiro pra apressar a partilha?
Empalideceu, quis fugir e não pode. Anos de fingidas grandezas o paralisaram. Confessou:
— Eu queria grana pra mudar de vida; vim pra cá em busca de uma nova
oportunidade ...
Enrubescido, contou que inicialmente tudo correra bem. Trouxera esposa e
filho, começara uma carreira promissora, comprara um apartamento espaçoso,
com vista para o mar. Consumiram a herança acreditando ser inesgotável. Não
era. Finda a bolada, passaram a depender única e exclusivamente do salário. Entretanto, este não cobria os gastos exorbitantes, tornando-se necessário cortar despesas supérfluas. Desgostosa, a mulher o abandonou. O aparente sucesso converteu-se em fragorosa derrota.
— E meu neto?
— Preferiu ficar com a mãe.
— Ele viajou, sabia?
— Vi as postagens dele em Waimea, posando de surfista profissional.
Subitamente eufórico tentou desviar o rumo da incômoda prosa:
— Mas ele voltou e mora comigo!
A reação fria da mãe estancou-lhe o ímpeto:
— Sem nenhum interesse, imagino.
Um silêncio repleto de reminiscências amargas empesteou o ar. O calor daquelas
mãos abrasava seu coração apequenado, enchendo-o de angústia pelas mesquinharias passadas. Mareado, torceu o corpo na cadeira em direção ao balcão ermo.
— Onde estará esse maldito garçom?
Ela não ligava para sua inquietude. Com a voz embargada pela saudade, perguntou:
— Tens notícias dos teus irmãos?
— Perdi o contato. Depois que a senhora partiu não vi sentido em continuar
falando com eles ...
— Eles são o que restou de nossa família! Podiam ter te ajudado.
— Decidi seguir meu caminho sozinho e mudei para cá.
Proferira as últimas palavras cabisbaixo, acabrunhado por saber que o autoexílio fora sinal de fraqueza.
— Deixa eu te mostrar uma coisa.
Pensou que a mãe inventava um pretexto para dissipar o mal-estar.
Viu-a retirar o celular da bolsa, mantendo-o voltado para si ao desbloquear a tela. Num gesto rápido, exibiu a foto de uma moça carregando um bebê. Recuou horrorizado, vidrado na imagem.
— Sabe quem é?
Afrouxou a gravata para desabotoar o colarinho. Respirar tornara-se opressivo.
— A Milena teve outra criança?
— Infelizmente não, coitadinha. Faleceu durante o procedimento e tornou-se estéril.
Para ser sincero, ele apagara esta passagem de sua mente. Recusara-se a assumir o amor proibido acalentado por Milena, sua amante. No seu entender, a tragédia foi culpa dela por engravidar sem consultá-lo, com o intuito de obrigá-lo a escolher ela ou a esposa. Brigaram feio. Agrediram-se verbal e fisicamente. O aborto, consequência de uma queda provocada por ele, encerrou definitivamente o caso.
— Se Milena está morta e enterrada como explicar essa foto?
— Encontrei os dois vindo para cá. Estão bem. Mandaram beijos e abraços.
Enquanto a mãe guardava o aparelho foi golpeado por um sentimento indefinível. Oprimiam-no remorsos acumulados no decorrer da existência: injustiças cometidas contra subalternos; trapaças; mentiras; ascensão social a custa de falcatruas. Tonteou. Agarrou-se a cadeira, delirante. Pronunciava frases desconexas:
— Cadê minha pasta? Como vim parar aqui? Quem é esta mulher?
A mãe olhava para ele com um misto de comiseração e raiva. Sempre fizera isso, desde pequeno. Ao ser flagrado nalguma traquinagem fazia-se de desentendido.
O carrilhão de um relógio ancestral entoou doze badaladas. Aliviada, bateu com as mãos no tampo, levantou-se e ordenou:
— Vamos?
— Vamos aonde?
Ela o tomou pelo braço, forçando-o a levantar. Arrastou-o porta afora.
Na saída, dobraram à direita. Alarmou-se ao buscar seu reflexo na vidraça. Viu um velho decrépito, trajando um surrado pijama listrado de azul e branco. Pigarreou ao sentir um troço estranho grudado nas gengivas desdentadas. Ergueu a mão trêmula ...
— Alzheimer — comentou a mãe.
... e retirou da boca uma pena branca. Um fio de baba ia do lábio à pluma de ganso, provavelmente oriunda daquele travesseiro macio que custou uma fortuna.
A mãe sorria divertida.
Estacou cético perante o óbvio. Encarou o ar zombeteiro da mãe e sussurrou:
— Meu filho não faria isso comigo.
Ela deu três tapinhas no seu braço e advertiu:
— Quem sai aos seus não degenera.
Fez menção de voltar, alegando:
— Esqueci de pagar a conta...
— Não te preocupes com isso. O garçom vai pendurar junto com as outras. Tuas
pendências serão quitadas no dia do Juízo Final.

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