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A ponteira - especial de Natal

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O primeiro domingo do Advento sempre tivera um significado especial para Roberto. Não por ser entusiasticamente religioso, mas por ser o dia de montar a Árvore de Natal. Desenvolvera o hábito colaborando, desde pequeno, com o empenho da família em ornamentar a moradia para as celebrações de final de ano. Perpetuava a tradição transmitida por sua mãe, já falecida, a quem reverenciava renovando, inovando e aprimorando a decoração. Devotava tamanha ênfase a essa perspectiva da liturgia que renegou o aspecto sagrado da data magna da cristandade. Vaidoso, recusava-se a reprisar o enredo anterior. Substituía tudo: bolas, festões, luzinhas, enfeites, esforçando-se para surpreender — e superar — amigos, conhecidos e parentes. Contudo, havia um item insubstituível: a ponteira! Sua aparência modesta destoava da exuberância reinante, porém carregava um peso simbólico inestimável. Fora trazida da Europa pelos antepassados maternos. Relíquia remanescente da pátria deixada para trás. Resisti...

Bola de Capotão

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Maneco, Lipe e Raspa de Tacho, ou simplesmente Rapa, formavam um trio inseparável. Os unia a origem humilde, o bairro no qual moravam, a escola que frequentavam e a alegria de perambular pela vida despretensiosamente. Desfrutavam das tardes pedalando, trocando figurinhas ou jogando peladas memoráveis com bolas de meia. Enfim, uma infância saudável. Infelizmente o mundo estava longe de ser perfeito. Um conflito eclodira no estrangeiro e os brasileiros foram convocados a lutar. Preocupado, o pai de Lipe ouvia as notícias filtrando a chiadeira do rádio capelinha. Ao anunciarem o embarque de pracinhas para combater na Europa largou uma frase que não fez sentido aos ouvidos do menino: — Quem diria. A cobra fumou ... Decorridos poucos meses outra notícia desagradável impôs a crueza da realidade na inocência pueril dos três amigos. O tio predileto de Rapa sucumbiu à tísica. Disseram que recusara terminantemente a internação no sanatório, preferindo tr...

O milagre das águas

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Lá no meu Rio Grande, pras bandas da fronteira com os castelhanos, tem um rincão louco de especial. Um riacho comprido, de águas mansas e profundas, forma um remanso mui lindo. Colado a faixa de areia da praia começa um relvado com um tarumã macanudo no centro. Dá gosto vê-lo florido. Parece o recanto ideal para o vivente apreciar um mate ou estender o baixeiro e sestear. Não se engane paisano. Nem se aproxegue. Vários tauras fizeram parada, esqueceram a valentia e abriram os panos fugindo de assombração. Passo do Enforcado é como le chamam. Não é fácil de achar. Fica oculto dos passantes da estrada por uns penedos. O nome funesto deve-se a conclusão de uma história difícil de aceitar que aconteceu. Tome assento, sorva o amargo e escuite. Nos tempos do Imperador isso tudo era sesmaria, posses do Major Demétrio. A duas léguas daqui ficava o rancho do posteiro Toríbio, peão de lei, valente, leal com os amigos e temente a Deus. Era casado com Sia Quinota. Des...

A última refeição

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A Tijuca é um tradicional bairro do Rio de Janeiro. Sua origem remonta ao século XVI, quando os jesuítas instalaram os primeiros engenhos de processamento de cana-de-açúcar. No século XX, após uma fase de crescente urbanização, consolidou-se como reduto de abastados, muitos dos quais aproveitavam o clima ameno para refugiar-se do ardente verão carioca. A modernidade desfigurou a vocação bucólica original, porém não conseguiu extirpá-la completamente. Deixando as avenidas principais e percorrendo as alamedas encontram-se recantos onde o tempo escorre lentamente e pode-se abstrair das tribulações diárias. Por exemplo, há uma travessa recôndita, densamente arborizada, pavimentada com pedras irregulares, cujo nome se esconde nas brumas da memória. Guarda em seu seio um antiquado restaurante, deslocado do bulício constante da civilização. A fachada, modernizada há décadas, dá sinais inequívocos de anacronismo. Destaca-se na paisagem por suas janelas enormes, ...

Oficleide

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Na segunda década do século XXI, enquanto o Sul do Brasil naufragava em um dilúvio sem precedentes, os rios do Norte secavam até esturricar o solo que lhes servia de leito. Como tantos outros ribeirinhos, Anastácio tirava o sustento das águas de um afluente do Rio Negro. Agora, peregrinava a pé enxuto buscando o que restara da imensidão do rio: um fiapo barrento que minguava paulatinamente. Arrastava-se debaixo de um sol escaldante, machucando os pés calçados com velhas chinelas nas pedras expostas. Caminhava e amaldiçoava sua sina. Em casa, esposa e três curumins dependiam de sua habilidade em trazer o peixe que os manteria vivos por mais uma noite. Daquela vez foi diferente. Distraído, mirando a margem sempre distante, tropeçou feio, ferindo o dedo maior do pé direito. Maldisse seu azar numa explosão de impropérios. Ajoelhou-se para atar o ferimento com um farrapo arrancado da camisa puída, doação da paróquia local. Ao abaixar-se notou o ponto onde dera a topada, facilmente identific...

Benício e o falso medium

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Lembram do Benício, o ancestral maragato notabilizado pela perícia ao aplicar a Gravata Colorada nos legalistas? Pois bem, reencontrei-o. Ou melhor, ele voltou a me procurar durante uma viagem a Porto Alegre. Surgiu pilchado, lenço vermelho no pescoço, tirador de couro sobre o chiripá surrado, garruchas e adaga atravessadas na guaiaca. Continua o mesmo fanfarrão debochado de sempre. Eu voltara à cidade para cuidar do inventário de meu recém finado pai e ele sequer aparentou demonstrar interesse ou solidariedade. Foi logo pedindo favores. Dessa vez para um conhecido tão morto quanto ele. — Estás terceirizando minhas habilidades? - Indaguei magoado pela indiferença, ofendido pelo oportunismo. Respondeu com a cara lavada de costume: — Mas bah! Deixa de melindres! Comentei a respeito dos teus dons e ele pediu que intercedesse. Não me faça desfeita perante um colega! Indignava-me a desfaçatez do antepassado. Em contrapartida, alg...