A última gota
Quincas tinha 71 anos de idade quando percebeu estar sendo seguido. O delírio persecutório começou imperceptível, como uma impressão sutil. Porém, a incômoda sensação de nunca estar sozinho evoluiu lenta e tenazmente. Em setembro de 1974, ao completar 72 primaveras, a impressão materializou-se na forma vagamente sensual de uma jovem usando um surrado vestido de algodão; longo o bastante para ser decente, justo na medida para realçar as coxas roliças por ele cobertas. Na cabeça, equilibrava com facilidade uma lata de querosene de vinte litros convertida em balde. As pernas rijas e bem torneadas indicavam a prática rotineira daquele exercício involuntário. Instintivamente pressentia conhecê-la. Esforçava-se por lembrar de onde, inutilmente. O inexplicável fenômeno apavorou-o no início. Entretanto, a moça era inofensiva. Limitava-se a segui-lo fielmente aonde quer que fosse. E detalhe importante: invisível aos demais. Vê-la era privilégio exclusivo de Quincas. Aflito com a constrangedora ...