A última gota
Quincas tinha 71 anos de idade quando percebeu estar sendo seguido.
O delírio persecutório começou imperceptível, como uma impressão sutil. Porém, a incômoda sensação de nunca estar sozinho evoluiu lenta e tenazmente. Em setembro de 1974, ao completar 72 primaveras, a impressão materializou-se na forma vagamente sensual de uma jovem usando um surrado vestido de algodão; longo o bastante para ser decente, justo na medida para realçar as coxas roliças por ele cobertas. Na cabeça, equilibrava com facilidade uma lata de querosene de vinte litros convertida em balde. As pernas rijas e bem torneadas indicavam a prática rotineira daquele exercício involuntário.
Instintivamente pressentia conhecê-la. Esforçava-se por lembrar de onde, inutilmente. O inexplicável fenômeno apavorou-o no início. Entretanto, a moça era inofensiva. Limitava-se a segui-lo fielmente aonde quer que fosse. E detalhe importante: invisível aos demais. Vê-la era privilégio exclusivo de Quincas.
Aflito com a constrangedora acompanhante, decidiu compartilhar o sucedido com alguém capaz de levá-lo a sério em matéria desse naipe. Convidou Romualdo, companheiro de bebedeira, jogatina e malandragem no auge da mocidade, para uma birita no Boteco Teco e abordou o assunto.
— Cê tá doido? — questionou Romualdo.
— É papo firme! A sirigaita não me deixa em paz.
— Ela tá aqui, agora? — Romualdo torceu-se, examinando o salão atentamente.
— Tá encostada no balcão, perto da chopeira.
O parceiro olhou, deu uma talagada na cerveja e falou francamente:
— Tem nada lá. Tá imaginando coisa.
Quincas contrariou-se com a incredulidade do amigo. Romualdo ria, jorrando perdigotos de espuma enquanto falava:
— Tá chorando de barriga cheia. Quem dera ter um broto me perseguindo. Pra mim sobrou a minha patroa e olhe lá. Essa só me perturba pra pedir dinheiro.
— Pensei que podia contar contigo, safado — resmungou Quincas, visivelmente aborrecido.
— Calma bicho, eu vou te ajudar. Sábado tem sessão e aproveito pra consultar o Pai de Santo a respeito.
Dito e feito. Na segunda-feira estavam os dois ocupando suas respectivas cadeiras cativas no Boteco Teco. O semblante fechado de Romualdo prenunciava más notícias:
— Fica esperto Quincas. A barra pesou pro teu lado.
Repassou ao colega as orientações recebidas, incluindo oferendas, rituais e um pedido inusitado:
— Procura um padre, te confessa e encomenda tua alma.
Quincas não esperava por essa. Em vida passara o rodo na mulherada sem medir consequências. Quem, das inúmeras possibilidades, voltaria exigindo reparação?
No dia seguinte precisava comparecer a uma consulta médica na cidade. Cedinho pegou o 395 e partiu sacolejando, espremido no ônibus lotado. A massa compacta de passageiros circundara a acompanhante sobrenatural, mas ele não desgrudava o olho da lata flutuando no mar de cabeças. Na altura da Presidente Vargas, passou a roleta e refugiou-se junto ao motorista. Desceu no final da linha. Ignorou o burburinho e atravessou a rua. Parou no Cine Palácio. Acostumara-se de tal modo à companhia fantasmagórica que nem notou sua ausência.
Sentiu-se cansado. Bateu um Continental no maço e o prendeu entre o anular e o indicador. Apalpou-se buscando fósforos. As pernas bambearam. O peito apertou-se, respirava com dificuldade, lutando contra o sufocamento. Deixou cair o cigarro. Buscou apoio na grade da bilheteria, fechada àquela hora. Um passante acorreu e o amparou. Quincas desfalecia devido a problemas cardíacos crônicos. Tolhido de surpresa, enredou-se na fronteira da consciência com a ilusão. Escutava murmúrios distantes. A perseguidora apareceu. Preso na inconsistência da realidade alijada dos sentidos, via nitidamente a mulher e sua maldita lata d'água.
Num gesto pretensamente casual, ela levou a mão às madeixas, revelando um brilho dourado no lóbulo esquerdo: um brinco em formato de flor. A imagem clareou a memória de Quincas. Sabia de quem se tratava! Ergueu-se resoluto. Visualizou seu reflexo no vidro do cinema. A calça boca de sino e a camisa Volta ao Mundo deram lugar ao terno de linho branco. A sandália transmutou-se em sapato bicolor, sucesso garantido na Estudantina. Ele também estava diferente, remoçado. O cabelo, gomalinado, renascera. A barba por fazer, grisalha, resumia-se a um bigodinho sedutor, cuidadosamente aparado.
— Betina! — balbuciou assustando os socorristas improvisados.
Uma pequena multidão aguardava a chegada da assistência para levar o idoso delirante para a emergência.
A moça deitou-lhe um olhar altivo, pleno de desdém.
Betina fora sua esposa. Não a reconhecera de imediato por apresentar-se no frescor da juventude e não como o bagaço encarquilhado que ele carregou para o túmulo no Cemitério de Inhaúma.
— Me perdoa...
A paixão de Betina por Quincas despontou prosaicamente. Conheceram-se dançando quadrilha na festa junina do bairro onde residiam. Ele marmanjo barbado, ela uma apetitosa garota desabrochando ao sabor dos vinte anos incompletos. A família tentou dissuadi-la, principalmente a irmã mais velha. As juras de amor eterno, sussurradas durante a troca de beijos ardentes, ofuscaram quaisquer argumentos racionais. Quincas logrou vencer a resistência de Betina ao presenteá-la com um singelo par de brincos de ouro, representando miosótis estilizados. A inocente conhecia a flor pelo nome popular "não-me-esqueças" e acreditou ser sincera a intenção do mimo. Casaram-se e, logo, descobriu o verdadeiro significado das palavras sacramentadas no altar.
As alegrias foram poucas e breves. As tristezas abundantes. A riqueza revelou-se quimera, a pobreza realidade. Moravam numa casinha simples, erguida pelos parentes dela no topo de uma ladeira íngreme, ocasionalmente revestida com pedrinhas soltas. As precariedades iniciais tornaram-se permanentes. Não havia luz elétrica, nem água encanada. Utilizava um fogareiro a querosene, emprestado pela vizinha, para preparar as refeições. Transformou os primeiros galões do combustível em vasilha. Enchia os recipientes na bica pública existente na parte baixa da rua e os carregava, penosamente, até a residência. Vieram os filhos, sete no total, e novas agruras. O dinheiro escasseava, assim como a presença do marido. Betina recorreu a expedientes para alimentar as crianças: costurava para fora, fornecia marmitas, faxinava casas alheias. Ingênua, recorria a esses expedientes para auxiliar o desditoso Quincas, contínuo numa repartição estadual, ganhando miséria e incapaz de dar à esposa e aos rebentos o conforto sonhado.
A irmã ajudava como podia, contudo, cansou de ver a caçula feita de palhaça. Anonimamente, fez chegar a suas mãos uma carta detalhando as atividades extracurriculares que mantinham Quincas ocupado ao ponto de relegar mulher e prole ao abandono. Disposta a pôr tudo em pratos limpos, Betina vestiu a roupa menos pior encontrada no guarda-vestidos, catou Beatriz, a menorzinha, e dirigiu-se ao centro da cidade, especificamente à Cinelândia.
Lá chegando, comprou um saquinho de pipocas para distrair a menina. Ocultaram-se atrás da cerca do Passeio Público e aguardaram. O cinema em frente, decorado com temas mouriscos, anunciava em letras garrafais o filme Acorrentada, com Joan Crawford, Clark Gable e grande elenco. A próxima sessão era às quatro. Faltava ainda meia-hora, todavia ela não precisou esperar tanto para bispar Quincas de braços dados com uma vistosa mulata. Ele sacou do bolso os bilhetes e os exibiu garbosamente.
— Patife! — murmurou Betina. — O desaforado não me leva nem pra dar uma volta na pracinha...
Os pombinhos ficaram arrulhando, certamente enrolando para entrar. Atônita, Betina viu o marido pegar um caramelo, colocar entre os dentes e oferecer à amante. Ela achegou-se dengosa, cobriu a metade exposta com os lábios carnudos. Trocaram um demorado, e indecente, beijo. A seguir, entraram porta adentro, saindo do campo de visão da pobre Betina.
Os costumes eram outros, implacáveis com as separadas. As alternativas eram vergonha, solidão e resignação. Calou-se e continuou vivendo na mentira. Tornou-se seca e avessa ao contato com o marido. O peste não ligava. Na verdade preferia, pois esse arranjo o eximia de inventar desculpas para as safadezas contumazes.
Ao alcançar a maioridade, Antônio, o primogênito, arrumou emprego e dispôs-se a amparar a mãe. Aos poucos reformou o casebre, pavimentou o chão da cozinha com ladrilhos, adquiriu fogão a gás, instalou luz e água corrente.
A vida ficou suportável e Betina bendizia os Céus pela benção concedida. Infelizmente não há bem que sempre dure. O filho enrabichou-se e saiu de casa para juntar os trapos com a namorada. Era ele quem pagava as contas e a situação voltou a tornar-se crítica.
Seguindo um hábito antigo, na tarde de uma sexta-feira, Betina sentou-se à mesa de madeira, abriu o pacote e espalhou o feijão. Com a tarimba obtida por incontáveis repetições, rapidamente separava os grãos estragados e outras impurezas num montículo. Aproveitava o momento para relembrar o fim de semana passado. Antônio e a nora a levaram à Nova Friburgo a passeio, comemorando seu quinquagésimo aniversário. Passaram o dia, almoçaram num restaurante, festejaram com refrescos e gelados. Foram algumas horas apenas, mas a euforia da novidade permaneceu intimamente arraigada. Beatriz entrou esbaforida, trazendo um papel:
— Tó mãe. Um homem pediu pra entregar.
Era um aviso da companhia de saneamento. Iriam cortar o fornecimento por falta de pagamento. Foi a gota d'água. A retrospectiva de tudo que fora sua vida de casada varreu sua mente. Reviveu décadas de infortúnios: desde falsas promessas de amor eterno até as penosas caminhadas transportando latas e mais latas ladeira acima. Os percalços deixaram marcas profundas na alma e no corpo.
No rosto gretado, cada sulco contava a história de mágoas infindáveis. Os dedos nodosos, os seios murchos e a coluna arqueada protestaram desesperados ante a penúria anunciada. O desgosto e a desânimo cobraram seu preço. Tombou silenciosamente, esparramando o feijão. Antes de partir desta para a melhor, lamentou não concluir o preparo da tradicional feijoada de domingo. O legista registrou, no atestado de óbito, acidente vascular cerebral como causa mortis. Sua irmã, familiares e amigos apostavam em outro diagnóstico: coração partido.
Quincas viu a si mesmo, deitado sobre o calçamento. Um bom samaritano o tapou com jornais. Alguém trouxe uma vela e a acendeu. A multidão dispersou-se. Um policial anotava o depoimento de uma testemunha. Uma desagradável aspereza na garganta desviou sua atenção da cena da própria morte.
Betina erguera o braço direito e tamborilava na lata. Cantarolava a modinha tocada pelo sanfoneiro na dança de quadrilha na qual se conheceram. Os pés descalços marcavam o ritmo. Balançava suavemente, fazendo escorrer fios de água, molhando seus cabelos, respingando em sua saia.
— Água! Preciso de um gole — disse Quincas e avançou decidido a aplacar a secura que o dominava por inteiro.
Betina sorria e se afastava. Deu-lhe as costas e seguiu graciosa, desfilando indiferente pela calçada em direção à Santa Teresa.
Incontrolável volúpia somou-se à sede abrasadora de Quincas. Ela açulava no outro a luxúria ao fazer o líquido escapulir pelas beiradas, empapando o vestidinho, colando o fino tecido nas curvas de seu corpo virginal. Sedento e carente, Quincas ordenou que parasse. Reivindicou privilégios de marido. Ela desdenhou e prosseguiu balançando e cantando. Impotente, o infeliz abaixou o tom da voz e pediu por favor. Nada. Consumido por sede e desejo, implorou, suplicou, rastejando de joelhos.
Betina parou por um instante e espiou por cima do ombro. Sorriu sem mostrar os dentes. Chegara sua vez de fazê-lo sofrer.

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