Pedaço de mim
O Natal de 2023 foi abençoado de diversas formas (leia o conto Cuidado Com o Cachorro e descubra porquê). Nessa ocasião recebi parentes vindos do Rio Grande do Sul, inclusive mamãe, de quem herdei a capacidade de comunicar-me com os habitantes do pós-vida.
Ela é profundamente religiosa e adora explorar lugares, vivenciar os costumes nativos, descobrir e experimentar o inesperado. Com isso em mente montei um roteiro turístico pouco convencional, incluindo atividades pitorescas e, óbvio, santuários antigos.
Ao visitarmos (eu, ela e minha irmã) o sítio arqueológico da Igreja da Ordem Terceiro do Carmo, no Centro Histórico do Rio, fomos surpreendidos por uma atração singular, acessível para pouquíssimos afortunados.
Mamãe atravessava o passadiço sobre a escavação, admirando os vestígios de alicerces emergindo do chão. De repente estacou e nos chamou pedindo silêncio. Agarrou-me pela camiseta e sussurrou ter visto uma coisa rastejando perto das pedras. Argumentei tratar-se de ratazanas, sem convencê-la.
— Era enorme. Parecia um lagarto.
A observação aguçou a vontade de ver o bicho. Ficamos os três parados, vigiando. A paciência foi recompensada. Lá pelas tantas surgiu um braço humano de aspecto deplorável, ressecado, ossudo. Arrastava-se desengonçadamente. Fazia dos dedos patas, percorrendo um trajeto definido. Atingiu a parede e retornou às entranhas da construção um par de vezes. Na terceira uma cutucada nas costelas trouxe-me de volta à realidade. A irmã perguntava o motivo da especulação. Mamãe comentou preocupada:
— Está confuso ...
Não tenho o dom da premonição, mas dessa vez chutei na direção certa:
— Provavelmente procura o resto do cadáver.
— Vocês estão me assustando — sibilou a mana, irritada por não compartilhar o mesmo tipo de visão.
Para mim é natural enxergar, escutar e falar com desencarnados. Via de regra são aparições desorientadas, maltratadas, enclausuradas em ciclos de negócios inacabados. Há exceções, é claro. Uns decidem permanecer aqui para evitar as consequências que os aguardam ao fazer a passagem. Outros apegaram-se de tal maneira aos prazeres terrenos que não conseguem desvencilhar-se de suas paixões carnais. Os obsessivos exigem cautela. Felizmente há uma minoria bem-humorada, disposta a prosear com quem lhes der trela.
É o caso do Aguadeiro, fantasma de um alforriado, facilmente encontrável junto ao Chafariz de Mestre Valentim. Quando vivo, ganhava tostões abastecendo as residências do entorno com água coletada na bica. Ao abandonar o invólucro carnal, conservou carapinha e barba rala alvas — indicativo de rara longevidade. Pés grossos, descalços, calça e bata de algodão. Apreciador de tabaco e aguardente.
No último Domingo de 2025 decidi rever esse velho amigo. Muni-me de um naco de fumo de rolo, um copo e alguma cachaça. A Praça XV fervilhava de turistas. Sentei-me na escada lateral do monumento e dispus as oferendas ao meu lado. O ponto é estratégico, permitindo relativa privacidade. O Aguadeiro não tardou a farejar as especiarias e achegou-se pressuroso. Como eu, estava com a agenda livre.
Discutimos temas variados: a enganosa finitude da existência, paisagens extintas pelo progresso, o mau gosto da arquitetura moderna:
— Tudo reto, liso. Trabaio de preguiçoso — resmungava ele.
Eventualmente calava e aspirava sofregamente o aroma dos regalos.
— Deve ser difícil ver-se privado do que se gosta — ponderei apontando para os presentes.
Ele exibiu a dentição completa num amplo sorriso.
— Podia sê menos mió, Nhonhô. Graças ao bom Deus truxe todas partes comigo.
Ri do comentário e pedi detalhes. Revelou ter topado, "um ror de veis", com o espírito mutilado de um sujeito antipático, irascível e asqueroso. Fugia dele como o diabo foge da Cruz, porém o sobrenatural tem suas leis e ambos pertenciam a mesma jurisdição, por assim dizer. Por terem vivido, e morrido, no Rio de Janeiro colonial, mantinham-se restritos a um território específico: o Centro Histórico e arredores. Roído pela curiosidade escutei atento.
— O braço direito do homi é um cotoco — gesticulou com a mão, simulando uma serra cortando o ar na altura do cotovelo.
Ainda não tivera oportunidade de conhecer o elemento. Lembrei imediatamente do tour realizado em 2023. Um braço avulso e uma assombração sem braço no Centro Histórico? A probabilidade de estarem relacionados era estratosférica. Senti ser meu dever esclarecer isso e ajudá-lo, se possível. Abastecido com informações adicionais — cortesia do Aguadeiro — , iniciei uma série de tocaias nos locais de maior frequência de avistamento.
Flagrei-o obsidiando uma elegante senhorinha na Rua do Ouvidor, quase esquina com a Rua da Quitanda. Sedutor, desdobrava-se em chistes e requebros, sem atrair a atenção da transeunte. Permaneci distante, espreitando. O cruzamento delimitava a zona de assédio. Desapegava de uma e grudava em outra. Sempre mulheres. Sempre senhoras acima de cinquenta anos.
Emulava um janota do século XVIII: casaca, colete, camisa de linho com punhos rendados e calções abotoados nos joelhos. Meias brancas cobriam o restante das pernas. Tão distinto cavalheiro naturalmente estaria calçado. Sapatos de pelica, com vistosas fivelas de prata, completavam o figurino. A manga direita descia reta, presa à casaca possivelmente por alfinetes. Portava o chapéu com a mão esquerda. O adereço exercia função prioritária nos volteios e meneios. O conjunto pretendia ser harmonioso, contudo, não era. As vestes apresentavam evidentes sinais de desgaste, prévios a sua atual condição fantasmagórica. Destoavam entre si. Eram apertadas ou folgadas em demasia. Na testa, uma cicatriz em formato de "L" denunciava a causa da desarmonia. Trajava artigos surrupiados de diferentes proprietários.
Ao perceber-se vigiado, esbravejou e sumiu. Reencontrei-o na Rua das Marrecas. Andava para cima e para baixo, examinando as fachadas, buscando, creio eu, a casa das Polacas. Tomei a iniciativa de falar-lhe. Queria avisá-lo que os bordéis fecharam há décadas. Chamei-o pela alcunha, fornecida pelo Aguadeiro:
— Sauim!
A reação foi pior que a anterior. Sacou a adaga, amaldiçoou-me num idioma ignoto e escapuliu. Agora que eu o conhecia e testemunhara seu modo de agir, restava elaborar uma estratégia para abordá-lo adequadamente. Antes necessitava reunir dados cruciais. Consultei os registros de processos jurídicos do período do Brasil Colonial preservados no fundo Corte de Apelação do Arquivo Histórico Nacional. Tomando como base época provável e alcunha, logrei identificá-lo em inúmeras ocorrências criminais. Além disso, contei com o apoio inestimável de contemporâneos do investigado. Alguns acorreram afoitos, caguetando avidamente o desafeto por terem sido lesados por suas velhacarias.
Malaquias, seu nome cristão, foi ativo meliante na recém instalada Capital do Brasil Colônia, mormente no final da segunda metade do século XVIII. Sua procedência é incerta. A tez morena e os traços semíticos indicavam ser oriundo do Norte da África ou natural da região outrora ocupada pelos árabes na Península Ibérica. Seja como for, deixou o torrão natal para aventurar-se mercadejando escravos. Falido, engajou-se como grumete num navio mercante rumo ao Brasil, cobiçando o ouro embarcado para o Rei de Portugal. Desembarcou em Salvador e mudou-se para o Rio de Janeiro. Malograda a ideia de apropriar-se dos bens da Coroa, passou a ganhar o pão graças ao suor do rosto alheio. Golpista refinado, aplicava o conto do homem apaixonado. Tornava-se irresistível às velhotas e viúvas endinheiradas. Extorquido o último vintém, as largava na rua da amargura sem dó nem piedade.
Desafortunadamente, o filho de uma dessas depauperadas era alferes real transferido recentemente da guarnição do Recife. Ao chegar encontrou a mãe na penúria, sobrevivendo à custa da caridade alheia. Furioso ao saber que Malaquias desbaratara a fortuna, e a honra, da ingênua senhora, arregimentou um magote de comparsas. Emboscaram o trambiqueiro e lhe deram uma coça. Não satisfeito, o militar, embriagado pelo vinho e pela adrenalina, achou por bem ministrar ao "mouro" a punição praticada em seu hipotético país de origem. Invadiram um sobrado desocupado. Mandou que o segurassem firme. Atou o punho e puxou, esticando o braço do infeliz sobre uma grossa mesa de madeira.
— Que pretendes? — questionou um dos camaradas.
— Cortar a mão desse safado — respondeu o alferes. Encarou maldosamente a vítima prestes a ser imolada e debochou:
— Não é o que fazem com os larápios?
— De jeito nenhum — arquejou Malaquias, tentando aparentar calma.
Tarde demais. O alferes brandiu o facão e o desceu com força. Talvez pela embriaguez, talvez por maldade, errou o golpe e decepou o antebraço na altura do cotovelo.
— Pelo ventre da mãe morta... Errei! — e gargalhou diabolicamente, agitando o penduricalho, respingando de vermelho a camarilha abestalhada com a ousadia do alferes.
Fez da roupa de Malaquias trapos. Neles enrolou o membro amputado e o levou como mórbida recordação da farra daquela noite. Deixaram-no ali para morrer.
O alferes transformou o suvenir macabro em amuleto. Salgou-o e o amarrou a um laço, utilizado para pendurá-lo na sala da casa de sua mãe. Um aviso nada sutil para novos pretendentes. Quando saia para beber levava o troço escondido num saco de oleado. Os parceiros de esbórnia, sabedores da broma e pândegos ao extremo, entoavam em coro:
— Tira! Tira! Tira!
Ladino, teatralizava o momento. Ora sacava num ímpeto, ora lentamente — conforme o efeito almejado — o conteúdo do saco para regozijo dos homens e repulsa das mulheres. Tanto aprontou que o assunto varou os muros do Convento do Carmo, chegando aos ouvidos do Abade, confessor da matriarca. Horrorizado, incumbiu Frei Simplício de dar fim ao tenebroso espetáculo. Chamado à razão, o alferes desfez-se da relíquia sem comunicar a outrem o destino que lhe fora dado.
Quanto a Malaquias, transido de dor, arrastou-se para fora. Alcançou o Beco dos Barbeiros. Desmaiou na valeta central, lambuzando-se num misto de águas servidas, sangue coagulado e catarros. Esteve frente às portas da morte. Salvou-o um bom samaritano que voltava da aplicação de sanguessugas e sangrias num cliente acometido de terçã. Estancou a hemorragia e deu-lhe abrigo até reestabelecer-se. Em paga a tamanho desvelo, Malaquias afanou-lhe as lâminas, a bacia e as ceroulas. Vendeu-as por bagatela.
Revigorado, saiu em busca do algoz. Refutando o senso comum, não desejava vingar-se.
Nutria ódio mortal contra o alferes, é fato. Todavia, outra cisma atormentava o coração de Malaquias. Um sentimento sagrado se impunha: urgia recuperar o membro perdido. Ao contrário do suposto por seus captores, não era muçulmano. A cor da pele, a barba e o nariz adunco o diferenciavam dos Europeus e guardavam um segredo milenar.
Remanescente de uma tribo que fizera do Planalto de Gizé seu lar, Malaquias herdara a crença de seus antepassados. Nos primórdios da civilização, seus ancestrais desenvolveram técnicas de conservação da carne que lhes permitiram sobreviver naquele ambiente inóspito. Posteriormente, aplicaram essas habilidades à preservação dos entes queridos falecidos. A fama decorrente instigou a vaidade dos Faraós que os requisitaram para o preparo dos próprios corpos. Com o passar das dinastias cristalizou-se uma linhagem de sacerdotes altamente especializados na arte da mumificação. Transformaram mister em culto. Veneravam a manutenção da forma física a qualquer custo. Afinal, não se pode adivinhar qual bocado será vital no além.
Tornaram-se temidos e respeitados em todo o Egito. Monopolizaram o ofício por milênios. A invasão romana, o advento do cristianismo e as mudanças socioeconômicas advindas encerraram a tradição do embalsamamento sem alterar o pensamento moldado pelas práticas funerárias executadas por gerações. Adepto fervoroso do credo, o infortunado Malaquias acreditava piamente ser impossível iniciar a derradeira jornada caso houvesse a mutilação da carne, por menor que fosse. Por isso dedicou-se a reaver a parte arrancada até esgotarem-se seus dias no plano material.
A perda do braço foi o início de uma longa lista de reveses a infernizá-lo. Ao menos é o que se depreende da ficha corrida levantada nos Anais do Arquivo Histórico. Os autos revelaram a imposição de um corretivo particularmente cruel: marcaram a letra "L" a ferro em brasa, na testa; pena reservada aos ladrões reincidentes. A partir daí nada mais encontrei e seu desfecho converteu-se em incógnita.
Tendo sido duplamente rejeitado por Malaquias deduzi ser esta aversão extensível aos representantes do sexo masculino em geral. Expus a situação à mamãe e a convidei a voltar ao Rio para trabalharmos em parceria. Ela adorou a sugestão e logo estávamos na Rua do Ouvidor. Eu, bebericando café numa lanchonete da Rua da Quitanda, ela desfilando despretensiosamente, aguardando a investida do Galã da Terceira Idade Setecentista. Soaram doze badaladas na torre da N. Sra. da Lapa dos Mercadores. Observei-o aproximar-se. Cochichou impropriedades para duas indiferentes e atacou a isca. Acercou-se derramando lábia. Ela virou-se sorridente e revidou:
— Olá Sauim. Haveria um local tranquilo, onde pudéssemos ficar a sós?
Malaquias infartaria se já não estivesse morto! Essa foi a primeira voz feminina a responder-lhe em séculos. Tolhido pela surpresa engasgou, tossiu e fugiu com o rabo entre as pernas.
Mamãe pegou uma cadeira e sentou-se. Frustrada, lamentou o ocorrido:
— Forcei a barra. Espantei o fulano.
— Por essa ele não esperava — respondi. — Na próxima pegamos ele.
No dia seguinte perambulamos pelo Passeio Público, também área de avistamento recorrente. Ou melhor, ela perambulava. Quanto a mim, assistia discretamente à distância. Ele despontou nas Marrecas e veio gingando. Avistou a silhueta de mamãe. Cruzou célere o portão, cofiou os bigodes, lambeu os beiços e armou o bote. Ao reconhecê-la, recuou receoso.
— Não seja tímido — riu mamãe. — Precisamos conversar.
O arremedo de D. Juan ficou visivelmente contrariado. A desenvoltura das mulheres empoderadas o desgostava. Entretanto, a possibilidade de flertar novamente o reteve:
— Estou às suas ordens estimada dama. Sou Malaquias, um vassalo a seu dispor.
— Sei ... Venha sentar com meu filho. Temos uma notícia que certamente vai te interessar.
O tom resoluto o desarmou. Malaquias cedeu e sentou-se entre nós. Aproveitei para questioná-lo a respeito de pormenores obscuros em sua biografia, principalmente na fase posterior a sua morte.
O episódio com o alferes abalara sua autoconfiança. O charme deixara de ser irresistível. Já não lograva seduzir as madames endinheiradas. Apelou para a rapinagem, alternando o assalto à bêbados com a caça ao pedaço faltante. Fuçou em todos os cantos, exceto onde deveria. Votava desmedido desprezo aos templos da cristandade por apregoarem que a ressurreição se dará independentemente da permanência do corpo físico. Para sua doutrina esse dogma é uma heresia. Uma blasfêmia abominável.
Morreu miserável e esquecido. Sepultaram-no em cova coletiva no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia, destino de indigentes e malfeitores. Procurar a ossada seria inútil. Então decidimos aplicar o tratamento de choque. Passamos um cortado para convencer o mequetrefe da honestidade de nossas intenções. Acostumado a viver na mentira, desconfiava da própria sombra. Para ele, aqueles malucos — nós — desejavam convertê-lo.
Se não fosse tão intolerante, teria economizado duzentos anos de peregrinações infrutíferas, uma vez que o alferes jogou o suvenir nas valas abertas para assentar as fundações da Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Enterrado sob toneladas de alvenaria, nem as obras de restauração em 2017 lograram desentocá-lo.
Alcançamos nosso objetivo ao descrever a peça anatômica rastejante. Seguimos calados à Praça XV. Algum sino badalou marcando as horas. Os antiquários empacotavam as tralhas e debandavam.
Enquanto aguardávamos Malaquias encher-se da necessária coragem, mamãe aproveitou para tirar uma dúvida:
— Porque "Sauim"? É bem incomum...
— É como os naturais desta terra chamam os miquinhos que abundam nas matas. Ato contínuo tirou o chapéu, exibindo a farta cabeleira crespíssima. Apontou para um bando de saguis saltitando nos galhos das árvores.
Mamãe tentou segurar o riso, apesar da inegável semelhança. O incidente quebrou o clima pesado, dispersando a tensão criada pela resistência de Malaquias. Adentramos o templo. A água benta das benzedeiras borbulhou na passagem do pulha. O conduzimos ao passadiço. Não acreditou em seus olhos. Arrastando-se penosamente, o braço seguia sua sina abaixo do assoalho de vidro. Correu, apanhou-o, sacudiu a "poeira" acumulada e o implantou no coto. Acenou com o membro restaurado, fez salamaleques e desapareceu.
Diferentemente de eventos precedentes, não vimos luz resplandecente ou algo do gênero. Ele simplesmente evaporou no ar.
— Pobre Malaquias — mamãe estava consternada. — Terá subido ou descido? Em vida foi um patife da pior espécie ...
— Boa pergunta — respondi. — Por outro lado, teve tempo de sobra para purgar sua alma penando entre nós.

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