Voa, Passarinho

Joca teve o azar de nascer numa família pobre. Último degrau de uma escadinha de seis irmãos, viu a penúria apagar lenta e silenciosamente quaisquer traços de bondade naquele cujo dever era proteger a prole.

Desde que se entendeu por gente, suportou calado o quanto pode as grosserias, os abusos verbais e as surras homéricas. Aos 13 anos queimou-lhe as entranhas uma força adormecida. Avivou o braseiro um percalço cruel, iniciado com amor e encerrado com tragédia.

Aquela segunda-feira de agosto amanheceu fria e chuvosa, típico clima na região Sul do País. Ao sair da escola, evitou o caminho direto. Chapinhou nas poças até chegar ao Centro da cidade. Queria espiar qual filme o Cine Teatro São Luiz exibiria na matinê de sábado. Sonhava visitar a sala de projeção. Por ora contentava-se em admirar os cartazes. Imitava a pose dos mocinhos, sacando pistolas imaginárias como um intrépido caubói. Ao cruzar a praça em direção a sua casa, avistou um cãozinho abandonado, ensopado, encarangado e solitário. Levou-o consigo aconchegado no peito, abrigado pela japona puída herdada do irmão mais velho. Deu-lhe água e sobras do almoço. Os demais irmãos adoraram a novidade. Concordaram chamá-lo Sultão, referência à indolência pachorrenta depois de encher o buchinho. Passaram horas divertindo-se com o amiguinho, correndo pelo pátio, jogando cabo de guerra com um naco de corda. Pararam ao sentir as sombras se espichando, convocando a presença da noite. Joca forrou com trapos uma caixa de papelão e abrigou o filhote. O pai chegou antes que tivesse tempo de escondê-lo. Ao ver o novo membro, enfureceu-se:

— Quem trouxe essa imundícia?

— O nome dele é Sultão — respondeu Joca.

Explodiu um tabefe. Joca rolou atordoado. Esbarrou no aparador. Derrubou o vaso de porcelana, derradeiro remanescente dos presentes de casamento. Os cacos se espalharam pelo chão. O pai cuspia as palavras desafivelando o cinto:

— Tá pensando que dinheiro dá em árvore?

Joca, pressentindo a ameaça, tentou levantar. Urgia retirar Sultão das vistas furibundas do pai. Foi pego pela orelha. Aturou safanões e cintadas sem emitir um ai. Ao terminar o corretivo, o homem chutou caixa, trapos e filhote porta afora. Ao recolher o corpinho inerte, constatou ser tarde. A cama converteu-se em caixão. Enterrou-o no fundo do quintal, engolindo raiva salgada de lágrimas.

Muniu-se das armas disponíveis: funda, cascalho e excepcional pontaria. O próximo rompante paterno ocorreu em seguida. O velho entornou os canecos após perder o emprego e voltara disposto a descontar a frustação na mulher e nos filhos. Confrontou-o decidido a vingar-se dos dolorosos golpes desferidos com o relho de couro cru, sadicamente utilizado como pretexto de "por esses baderneiros na linha". Catou na sacola de pano a tiracolo um seixo rolado, mirou e disparou, acertando a têmpora do agressor. Deu gosto vê-lo desabar pesadamente, com o cabelo seboso, a cara suja e a camisa encardida tingidos de vermelho. Joca esperava ser ovacionado, porém os irmãos se encolheram assustados. A mãe acudiu o traste desfalecido, acusando Joca de ter matado o marido. Berrou chamando a polícia e saltou para agarrá-lo. Joca, acostumado a driblar zagueiros com o dobro do seu tamanho, esquivou-se. Pulou a janela e enveredou macegas adentro, emergindo no campinho onde jogava bola e se refugiava em ocorrências similares.

Almejava encontrar algum parceiro de vadiagem para, juntos, aguardarem a situação acalmar. Fizera disso um hábito. Desta vez foi diferente. Na correria, esqueceu que o Gran Circo Abelardo estava montado no local. Circulou atarantado, observando os operários desmontarem a estrutura e se prepararem para partir. Apesar das privações e dissabores enfrentados ao longo da infância, possuía uma alma livre. Seduzido pelo estilo nômade da trupe, resolveu juntar-se ao grupo com a cara de pau que Deus lhe deu. Enturmou-se e naquela mesma tarde fugiu, contratado como assistente de picadeiro.

A excitação da aventura amenizou a dureza da rotina, a comida insossa e as acomodações desconfortáveis. Os veteranos aplicavam trotes no novato. Era escalado para incumbências desprezíveis: limpar jaulas, estábulos e latrinas. Alimentava os animais, varria o terreiro, recolhia as porcarias deixadas pelo público nas arquibancadas depois de cada espetáculo. Atuava como figurante nos esquetes dos palhaços, arrancando gargalhadas da plateia. Também ajudava na cozinha e essa nem era a parte ruim. Ao menos no início.

Nessa época revelou-se uma característica marcante: a habilidade de encantar bichos. 

Além de desagradável, a remoção da sujeira das feras apresentava sério risco. O destemido aprendiz parecia imune ao perigo. Lidava com onças e leões com assombrosa naturalidade. Falava e o atendiam. Bastava vê-lo, Alabas, o elefante indiano, elevava a tromba, enquanto flexionava as patas dianteiras. Joca sussurrava-lhe confidências colado ao ouvido, dando tapinhas na imensa bochecha. Ao final, regalava uma maça, prontamente devorada. 

Valério, um quarentão arrogante, de má índole e parcos cabelos, preparava a gororoba servida nas três refeições diárias. Tratava Joca com afetuosa benevolência. Nos primeiros meses as coisas correram bem. Aos poucos as demonstrações de afeto tornaram-se incômodas. Os cochichos provocados por estes exageros multiplicavam-se, deixando Joca sem graça, mas ele não tinha coragem de pedir a Valério que parasse.

Durante o inverno não havia sessões matutinas, pois ninguém comparecia. Concluídas as tarefas, o pessoal aproveitava para lagartear ao Sol e bater papo, aguardando o toque do rancho. Joca finalizava um panelão de arroz quando ouviu Valério chamar de dentro da despensa. Pedia ajuda para localizar o charque adquirido na véspera. Desligou o fogo e foi socorrer o arremedo de chef. Encontrou-o afogueado, rente à manta de carne pendurada em um gancho. Sanada a emergência, deu meia-volta.

— Joca, fica um pouquinho... — a malícia no tom de voz passou despercebida. Algo que ingenuidade e inexperiência o impediram de entender corretamente.

Achegou-se baldoso, com uma conversa comprida, tipo cerca-lourenço. Elogiava a presteza de Joca no serviço, sua juventude, a beleza de seus cachos. Nesse momento dedos ásperos acariciaram a face enrubescida do menino. Joca refugou, guiado pelo instinto. Ofegante, Valério agarrou-o pela cintura e partiu para o ataque:

— Posso passar a mão na tua bundinha?

A simples recordação do volume quente, crescendo sob as calças de Valério, causou-lhe náuseas por décadas. Curiosamente, apagou da memória como desvencilhou-se do abraço lúbrico. Lembrava de correr desatinado, desviando de atônitos acrobatas, trapezistas e maquinistas. Trancou-se na latrina, coração saltando pela boca. Apalpou-se como se houvessem lhe tirado um pedaço. Estava intacto. Perdera somente a inocência.

Pancadas na porta o devolveram à realidade. A bailarina insistia em usar a patente antes de se arrumar para a primeira sessão. A moça condoeu-se da aflição de Joca e escutou seu relato atenta. Solidária, contou já ter passado por perrengues semelhantes e o orientou a ter cautela com outros membros da trupe. Os meses vindouros foram difíceis, pois ele não podia abdicar de suas funções e o ressentimento de Valério era notório. 

Agastado pelos melindres do cozinheiro, divisou a oportunidade de safar-se no dia em que ergueram a lona no descampado contíguo ao pátio ferroviário de Santa Maria da Boca do Monte. Ao anoitecer, escondeu-se num vagão de carga, ignorando qual seria seu destino. Desembarcou no porto de Rio Grande aos 16 anos. Trazia uma trouxa de roupas, escassos mil-réis e borbotões de esperança. Alistou-se como taifeiro em uma traineira que jamais deixou o cais. Logrou empregar-se na estalagem Dois Marítimos. No início do terceiro ano ingressou no sindicado dos estivadores. Trabalho pesado, todavia, com salário maior e vantagens adicionais: não precisava lavar banheiros, escovar vômitos nem atender hóspedes bêbados.

Com a estabilidade financeira veio a prosperidade. Juntou dinheiro. Comprou uma casinhola de olho no terreno amplo, repleto de árvores frutíferas. Adotou um vira-lata, soltou galinhas no quintal. Finalmente concretizou uma ideia acalentada há tempos: montar um criadouro de pássaros. Construiu viveiros e uma reputação.

Volta e meia aparecia na sede do Sindicato carregando uma gaiola, exibindo orgulhoso o fruto do seu empenho. A turma aproveitou o mote. A alcunha surgiu naturalmente. Ao vê-lo, saudavam:

— Joca Passarinho! — e cercavam a dupla para ouvir o trinado ou apreciar as piruetas dadas pelo engaiolado.

A repetição simplificou o vocativo. Sintetizou-se em uma palavra:

— Passarinho!

O moleque interior encarou o apelido como honrosa deferência e o abraçou como se nome fosse. Num baile de Carnaval conheceu uma jovem encantadora. Apresentou-se:

— Prazer. Joca Passarinho ao seu dispor.

Amélia riu. Um brilho inesperado iluminou o olhar de ambos. Namoraram, noivaram, casaram-se. Não tiveram filhos. 

O período nas docas ensinou-lhe lições valiosas. Infelizmente também lhe incutiu costumes deploráveis. Por exemplo, as frequentes confraternizações com os camaradas legaram-lhe o vício da cachaça. Bebeu o restante da vida. Parou ao ser acometido de doença braba, debilitado ao extremo.

Ao tornar-se inapto para a estiva, buscou novos meios de subsistência. Montou um bar. Faliu ao completar um ano. Consumia o estoque, vendia fiado aos ex-colegas, incapazes de honrar os apontamentos na caderneta da bodega.

Recorrentes fracassos turvaram-lhe o coração, deixando-o amargo. Confinou-se nas gaiolas de seu passatempo. Acabou por dedicar mais atenção ao criatório do que à esposa. Amélia, cansada de ser o esteio do casal e de aturar os maus bofes do marido, empacotou as tralhas e sumiu. Joca encontrou um bilhete lacônico, explicando o tanto de amor devotado e não correspondido. O amaria eternamente, só não podia viver assim.

Desgostoso, Joca vendeu tudo. Mudou-se para a Capital em busca de melhores opções de tratamento para o câncer que o carcomia devagar e sempre. Talvez por saudades da maresia, abriu uma peixaria. Manjava do assunto e a loja bombou na vizinhança. Arranjou um papagaio e o adestrou. Mal o freguês assomava à porta o louro, zombeteiro, avisava:

— O peixe tá podre, vizinha! — e ria daquele jeito engraçado, próprio da espécie.

Vinha gente de longe conhecer a mascote galhofeira. Joca fugira de casa sem concluir a quinta série, contudo, detinha o saber prático da experiência.

O sucesso comercial da iniciativa pagava as contas. Não enriqueceu; por outro lado, não passou fome. Seguiu nesse ritmo enquanto pode. Inevitavelmente a idade e a moléstia cobraram seu preço. A venda da peixaria extinguiu os últimos resquícios do antigo vigor. Sobreviveu o dom de lidar com animais. O apartamento alugado não oferecia espaço adequado. Isso não o impediu de lotar as paredes com gaiolas. Criava vários tipos de aves. Dedicava-se a elas com o afinco permitido pela saúde frágil. Entretanto, um indício preocupante instalou uma enorme pulga atrás de sua orelha. Há semanas tentava ensinar o canário predileto a assoviar o hino nacional. A falta de progresso escancarou a possibilidade da perda do que dava sentido a sua existência.

Certa manhã de outono, Amélia coava café na cozinha. Pela janela entrou um passarinho tão amarelo quanto a gema do ovo estalando na frigideira. Pousou no peitoril, assoviando alegremente. Surpresa com a inusitada performance, reconheceu de imediato a melodia. Acompanhou cantando baixinho:

— Ouviram do Ipiranga...

Finda as estrofes iniciais, calou-se o visitante. Olhava Amélia como se precisasse transmitir uma mensagem. O silêncio desabou sobre ela. Escorreu uma lágrima. O passarinho abriu as asas num gesto de adeus e voou. Amélia correu à janela e ali permaneceu até perdê-lo de vista. Percebeu a tristeza dominá-la ao despedir-se de seu grande amor. Sorriu conformada. A alma de Joca estava livre para alçar voo ao infinito.

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