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Atalaia

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Esta é uma obra de ficção baseada em eventos históricos, concebida como forma de homenagear a cidade do Rio de Janeiro no mês do seu aniversário. O sol nasce mais uma vez sobre a Vila de São Sebastião do Rio de Janeiro. Já perdi a conta dos dias e noites que fiquei de vigia sobre esse monte, velando pelas almas que se espalham a perder de vista. Essa fortaleza – a da Conceição – onde agora me encontro, foi erguida em função dos acontecimentos terríveis que afligiram essa freguesia no Ano da Graça de Nosso Senhor de 1711. — Casa arrombada, trancas à porta, não é o que diz a voz do povo? Se tivesse sido construída ao menos um ano antes tudo teria sido diferente e tantas vidas poderiam ter sido poupadas. Como a de João Antônio, meu pai. Éramos em cinco. Ele, minha mãe, duas irmãs e esse que vos fala. Vivia-se bem, com as rendas que o pequeno comércio da família produzia. Morávamos na Rua da Quitanda, próximo ao cruzamento que fazia com a Rua do Gadelha, num sobrado erguido a muito custo e...

O Homem de Branco

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Quem transita pelo centro do Rio de Janeiro já deve tê-lo visto. Um homem magro, mais alto que a maioria de nós, sempre calado. Passaria despercebido não fosse por um detalhe. Veste uma longa túnica branca, encimada por uma espécie de turbante. Malgrado sua aparência extravagante, não chama a atenção dos transeuntes, talvez por estarem tão acostumados a sua presença que é como se estivesse incorporado à paisagem. A primeira vez que o vi estava sentado numa pedra, debaixo de uma árvore, próximo a confluência da Av. Marechal Câmara com a Churchil. O sol escaldante dava o tom do típico verão carioca e, aparentemente, ele buscara a sombra para descansar. Eu morava no Rio há alguns meses e gostava de andar a pé para admirar os contornos de uma cidade muito maior do que aquela na qual sou nascido e criado. Perambulava atento a tudo e, talvez por isso, aquela figura desconcertante tenha despertado em mim um vívido interesse. Na ocasião eu estava com pressa. Seguia para o Santos Dumont e prete...

Espírito de Natal

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Se não me falha a memória, faz uns quatro anos que passamos o último Natal sem incidentes. O fenômeno teve início em 2018, creio que na segunda semana de dezembro. A partir daí passou a acontecer sempre na mesma época. Começou fraco, na hora eu não reparei, ou não quis acreditar que fosse real, o que é o mais provável. Estava sentado na poltrona da sala, bebericando cerveja enquanto respondia mensagens no celular. Uma sensação desagradável tomou conta do meu peito. Sem razão aparente, olhei para a janela. Era noite, quase não se via o lado de fora. Por um instante vi o brilho fugaz de dois luzeiros. Julguei ser um gato e voltei a zapear o aparelho. Fiquei cismado com a distância entre os pontos luminosos. Lembro de pensar que devia ser um bicho enorme e que não haviam gatos daquele tamanho na vizinhança. Não era um animal, hoje sei disso. Demorou para que eu aceitasse essa simples verdade. No ano seguinte aconteceu de novo. Vi claramente um par de olhos que me vigiava da rua. Dessa vez...

Gravata colorada

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O caso de Juju (leia o conto Jardim de Infância para saber os detalhes) reteve-me em Porto Alegre além do que esperava, deixando-me com alguns compromissos atrasados e um esgotamento emocional considerável. No momento em que aquele anjo encontrou seu caminho, respirei aliviado, despedi-me da família e fui direto para o hotel. Necessitava relaxar. Enchi a banheira com água morna e fiquei ali, alheio a tudo, isolado da realidade e seus aborrecimentos.  Por isso, ao perceber o brilho fosforescente que se insinuava através da abertura da porta, gelei. Começou fraco para logo em seguida assumir uma proporção raramente vista. Sem esconder uma ponta de irritação, exclamei em alto e bom som: — Tenha a santa paciência! Não era para menos. A forte luminosidade indicava a presença de uma visita inesperada que trazia uma demanda a ser atendida, conflitando com meu desejo de fechar as malas e retornar ao Rio o mais cedo possível. Vesti o roupão apressadamente e espiei o interior do quarto, bus...

Jardim de Infância

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O Sul do Brasil costuma ter um inverno rigoroso e chuvoso. Aquela tarde cinzenta confirmava isso. A luminosidade fraca que atravessava as vidraças não era páreo para as luzes claras que iluminavam a sala do Jardim B, realçando o colorido dos desenhos expostos nas paredes, obra dos pequenos artistas que agora faziam uma algazarra fora do normal. Lucinda, a professora, observava em silêncio, incapaz de tomar uma atitude para apaziguar a turma que, excitada, se comprimia numa das janelas, acenando e chamando um nome em particular: — Juju! Vem pra dentro! Tá chovendo ... Cautelosamente ela virou o rosto de modo a enxergar o pátio. Lá fora, indiferente aos apelos de seus coleguinhas, Juju chapinhava feliz nas poças que cobriam a área de lazer da escola. Atraída pelo tumulto, Dionísia, a diretora, irrompeu à porta e perguntou antevendo a resposta: — A Juju de novo? Em silêncio, Lucinda sinalizou afirmativamente e baixou a cabeça. A diretora seguiu rapidamente para o corredor que dava acesso ...